Por Śrī Rūpa Goswāmī, com comentários de Swāmi BV Tripurāri
Texto 4
śrī-svarṇadī yatra vihāra bhūmiḥ
suvarṇa-sopāna-nibaddha-tīrā
vyāptormibhir gaura vagāha-rūpais
taṁ śrī-navadvīpam ahaṁ smarāmi
Em meditação, recordo-me de Śrī Navadvīpa-dhāma, onde as brincalhonas ondas da bela Gaṅgā celestial sobem e descem, salpicando as escadarias incrustadas de ouro que ladeiam suas margens — ghāṭas nos quais Gaura se banha em passatempos de prazer.
Comentário
Śrī Rūpa descreve a Gaṅgā subindo e descendo quase musicalmente, lavando as escadarias douradas de seus ghāṭas, onde Gaura se banha, como se as estivesse preparando para seu banho matinal.
Notável em tais descrições é um elemento de majestade que não é visível a olho nu. As casas são imaginadas como construídas de minerais valiosos, portões e colunas de pedras preciosas e semipreciosas, e assim por diante. Aqui encontramos ghāṭas (balneários) consistindo em escadarias douradas que conduzem das margens superiores da Gaṅgā até suas águas abaixo.
Mas tais descrições poéticas e concebidas espiritualmente não representam a verdadeira riqueza desse domínio sagrado e, por isso, pode-se argumentar que elas têm em vista um propósito secundário. Por um lado, elas envolvem o uso de um valor material avassalador na tentativa de fazer justiça, em palavras, à verdadeira riqueza que se encontra além do valor ilusório de qualquer coisa dentro do nosso continuum espaço-tempo; e, por outro lado, talvez sirvam ao propósito de atrair a atenção daqueles que cobiçam tal opulência material. Mas a verdadeira riqueza de Navadvīpa-dhāma é seu prema — a intimidade do dāsya-rasa tingida de fraternidade que ela proporciona aos devotos de Gaura — siddhas em uma līlā na qual desempenham o papel de sādhakas. Assim, Navadvīpa e sua līlā são às vezes chamados de sādhaka-siddha-bhūmi.
O fato de esse prema ser às vezes descrito como ocorrendo em casas construídas de ouro, rubis, esmeraldas e coisas semelhantes sugere que, ali, pedras preciosas são utilizadas apenas como simples materiais de construção. E, apesar de tamanha opulência, o temperamento dos habitantes permanece simples e humilde, sem qualquer traço do orgulho comum entre os privilegiados. Aqui, nosso príncipe é um príncipe dos vaqueiros — Kṛṣṇa na forma de um menino brāhmaṇa — Gaura Kṛṣṇa.
(Artigo original em Śrī Navadvīpāṣṭakam 4 | Harmonist)