Extraído de seu novo livro, Círculo de Amigos, como parte de uma série de artigos sobre Balarāma Tattva.
Em Vraja, Balarāma é o melhor amigo de Kṛṣṇa, mas não está diretamente envolvido na vida romântica de Kṛṣṇa, e sua própria vida romântica em Vraja é apenas algo secundário. Como Balarāma é o irmão mais velho de Kṛṣṇa, isso o impede de participar diretamente do romanticismo de Rādhā e Kṛṣṇa, que é central à Vṛndāvana līlā. Sua presença ou participação direta inibiria a intimidade do amor romântico de Kṛṣṇa por Rādhā. Como irmão mais velho de Kṛṣṇa, ele é o maryādā puruṣa na vida de seu irmão mais novo, ajudando habilmente Yaśodā a cuidar dele e a garantir que Kṛṣṇa mantenha sua maryādā (comportamento apropriado). Embora relate aos mais velhos o comportamento de Kṛṣṇa, ele não lhes conta sobre os encontros românticos secretos de Kṛṣṇa. Em vez disso, durante o dia, ele facilita esses encontros, ocupando em brincadeiras os amigos de Kṛṣṇa que não têm inclinação para participar dessas aventuras. Assim, ele garante a esses amigos noites tranquilas, repletas de sonhos com brincadeiras fraternais e, ao mesmo tempo, facilita indiretamente os passatempos amorosos de Kṛṣṇa ao meio-dia, acompanhados por seus amigos mais íntimos. Certamente, se Balarāma não conta nada sobre os encontros românticos de Rādhā e Kṛṣṇa, eles não passam de rumores. É isso que os mais velhos concluem de seu silêncio. Assim, no drama da Vraja līlā, Balarāma é um importante ator coadjuvante. Sua própria vida romântica é como a do melhor amigo do herói, que também tem uma esposa, mas que, no drama, o público nem sequer sabe o nome dela.
A primeira referência à vida romântica de Rāma aparece no décimo quinto capítulo do décimo canto do Bhāgavata Purāṇa mencionado acima. À medida que Kṛṣṇa conclui seu louvor a Rāma, seu humor se intensifica. Embora aparentemente esteja glorificando Balarāma, nessa passagem ele faz, com humor, uma referência indireta muito mais a si mesmo:
As gopīs são afortunadas porque você as abraça diretamente contra o peito, algo que é desejado até mesmo por Lakṣmī.
Aqui, a glorificação de Balarāma feita por Kṛṣṇa refere-se mais diretamente a si mesmo, pois é o peito de Kṛṣṇa que Lakṣmī deseja abraçar, e não o de Balarāma. No entanto, toda brincadeira tem um fundo de verdade, e, sendo assim, Balarāma tem suas próprias gopīs e sua própria vida romântica. Mas, como veremos, o romanticismo não é central à sua vida como o é às līlās de Kṛṣṇa.
As gopīs de Balarāma aparecem pela primeira vez no trigésimo quarto capítulo do décimo canto do Bhāgavata. O contexto é a véspera de Holī, o “festival das cores”, como é popularmente conhecido hoje em todo o mundo. Essa ocasião é categoricamente diferente dos encontros secretos de Kṛṣṇa com suas gopīs no meio da noite. Holī, em contraste, é celebrado publicamente por jovens e idosos em toda Vraja. Trata-se da brincadeira religiosa que se segue à observância de Śivarātri , em contraste com um encontro secreto extraconjugal, marcado pelo anseio e pela intimidade física. Este capítulo descreve Kṛṣṇa e Balarāma divertindo-se juntos com as jovens vaqueiras de Vraja, enquanto também estavam notavelmente acompanhados por muitos de seus amigos vaqueiros. Essa līlā também envolve o aiśvarya de matar o lascivo Śaṅkhacūḍa. Jīva Goswāmī escreve sobre Balarāma, a respeito dessa līlā, que “junto com Balarāma, tomado pela alegria de sakhya, o grupo se reuniu”.
No entanto, a semente daquilo que se tornará o anseio amoroso às vezes é semeada em contextos como esses. Assim, um determinado grupo de jovens gopīs apaixonou-se por Balarāma durante Holī, e é essa semente de seu amor que Balarāma finalmente nutre, muitos anos depois, embora com certa hesitação. Como veremos, ele só se casou com essas gopīs por insistência de outros, ao retornar a Vraja vindo de Dvārakā, no contexto de levar a mensagem de Kṛṣṇa às gopīs de Kṛṣṇa. Para compreender melhor a natureza secundária da vida romântica pessoal de Rāma em comparação com sua preocupação primária, a amizade com Kṛṣṇa—seu sakhya-rati—, será bom examinar a essência dessa līlā—Śrīmad Bhāgavatam 10.65 — recorrendo aos comentários Gauḍīya e a textos relacionados.
O anseio de Kṛṣṇa de retornar a Vraja desde Dvārakā também era compartilhado por Balarāma. Rāma queria retornar a Vraja e queria que Kṛṣṇa retornasse com ele. No entanto, dia após dia, Kṛṣṇa inventava desculpas para não retornar, a ponto de Rāma começar a questionar o amor de seu irmão por Vraja — por seus pais, amigos, servos, vacas e pelas jovens gopīs que haviam se apaixonado por Kṛṣṇa. Assim, Rāma finalmente confrontou Kṛṣṇa. Reassegurando Rāma de seu amor por seus devotos, Kṛṣṇa explicou seu dilema: Nanda lhe havia instruído a seguir as ordens de Vasudeva, que não lhe permitiria partir para Vraja. Assim, ele sugeriu que Rāma retornasse sem ele, levando notícias suas e assegurando a todos em Vraja seu amor por eles. Em particular, deu a Rāma uma mensagem para entregar às gopīs que haviam arriscado sua reputação por ele. A propósito, Kṛṣṇa também disse a Balarāma que se casasse com as jovens gopīs que haviam se apaixonado por ele durante a celebração de Holī, embora Balarāma não pensasse nelas. Assim, Rāma partiu para Vraja. Ao se aproximar da aldeia, ele trocou suas roupas por um traje rústico para se reencontrar com seus devotos do rāga-mārga. Uma vez lá, assegurou-lhes o amor de Kṛṣṇa por eles e, depois de mais alguma insistência, também se casou com as gopīs que haviam se apaixonado por ele durante a celebração de Holī.
Rāma encontrou primeiro seus pais e depois seus amigos. Estava mais do que claro para ele que seus amigos e benquerentes estavam internamente tristes sem Kṛṣṇa, mas, externamente, cumpriam mecanicamente seu dever de cuidar de suas vacas, numa tentativa de agradá-lo durante sua visita; e isso, por sua vez, fazia com que lágrimas fluíssem constantemente de seus olhos. Seus amigos disseram:
Ó Bala, será que você e Kānu vão voltar a brincar conosco? Nossas vidas e as vidas das vacas agora estão em uma situação precária. Por favor, nos revitalize, para que possamos viver e brincar como antes.
Então, depois de dois ou três dias, Balarāma tomou providências para se encontrar com as gopīs de Kṛṣṇa. Esse encontro é o ponto central de seu retorno. É realmente disso que trata o capítulo: a capacidade de Rāma de representar Kṛṣṇa diante daquelas gopīs que haviam dedicado suas vidas a ele durante a rāsa-līlā.
Viśvanātha Cakravartī comenta a descrição de Śukamuni sobre o encontro de Balarāma com Rādhā e suas companheiras: As palavras do sábio, rāma-sandarśanādṛtāḥ — honrando Rāma depois de receber seu darśana — têm dois significados. Elas implicam não apenas que as gopīs demonstram reverência a Rāma, mas também que Balarāma se curva diante do mahābhāva manifestado pelas gopīs de Kṛṣṇa. Em sua versão dessa līlā no Gopāla-campū, Śrī Jīva descreve Balarāma referindo-se respeitosamente às gopīs de Kṛṣṇa. Em seguida, Śukadeva invoca o epíteto de Balarāma, Saṅkarṣaṇa, sugerindo que Balarāma tinha a capacidade de representar Kṛṣṇa e, assim, atraí-lo — ou seja, chamar sua atenção e, desse modo, sua presença — de tal maneira que Kṛṣṇa realmente apareceu ali diante das gopīs na pessoa de Balarāma. Segundo a tradição oral, acredita-se que isso fez com que Rāma assumisse a tez de Kṛṣṇa, embora ele jamais tenha pensado em desfrutar das gopīs de Kṛṣṇa para si mesmo. Foi na confiança — viśrambha — que é central ao sakhya-rasa, que Kṛṣṇa confiou a Rāma a tarefa de apaziguar as gopīs de maneiras que Uddhava anteriormente não havia conseguido. Rāma fez isso fazendo com que a presença de Kṛṣṇa fosse sentida e, em seguida, prometendo ir até Dvārakā e trazer Kṛṣṇa à força, de uma maneira que Uddhava não poderia de fazer. Este é um exemplo da habilidade de Balarāma em representar Kṛṣṇa. Depois disso, somente a pedido compassivo de Rādhā, e não sem antes obter a permissão dos mais velhos, Balarāma se encontrou separadamente com as gopīs cujos nomes não são especificados, que se sentiram atraídas por ele durante a juventude, na celebração de Holī:
Rādhā disse, “Aceitamos sua promessa de trazer Kṛṣṇa de volta. Agora, se você aceitar todas as minhas companheiras, que preservaram sua castidade desde a juventude, sempre exclusivamente por você, rejeitando o próprio prazer e permanecendo em suas casas, magras e como se estivessem doentes, então manterei essas mulheres perto de mim enquanto você vai buscar seu irmão.”
Ao que Balarāma respondeu, “Embora este não seja o momento para isso, ainda assim farei isso de algum modo, para consolar todas vocês. Mas, antes de tudo, preciso receber a permissão dos mais velhos.
Os mais velhos deram sua permissão. Na verdade, pediram repetidamente que ele fizesse o que fosse necessário, mas, ainda assim, Rāma hesitava em participar de uma celebração de casamento na ausência de Kṛṣṇa. Assim, Balarāma, ainda hesitante, casou-se com essas gopīs anônimas segundo o rito gandharva, em um local isolado — Rāma Ghāṭa — ao norte da grande figueira-de-bengala, ao pé da qual Rāma, Kṛṣṇa e seus sakhās costumavam se reunir para brincar e planejar suas estratégias. O casamento aconteceu sem nenhuma formalidade e sem convidados, com Rāma embriagado e em toda a sua majestade, repreendendo o rio Yamunā e, milagrosamente, puxando-o até si com seu arado. Enquanto o Śrīmad Bhāgavatam dedica cinco longos capítulos à descrição da rāsa-līlā de Kṛṣṇa — o ponto central de todo o texto —, este grantha-rāja Gauḍīya emprega apenas quatro versos para descrever a chamada rāsa-līlā de Balarāma em Rāma Ghāṭa (10.65.17–18, 21–22), sendo que os dois últimos não aparecem em todos os manuscritos do texto.
O anonimato de suas gopīs evidencia, no mínimo, a incapacidade do sādhaka de seguir o exemplo delas, algo essencial na rāgānuga-bhakti. Além disso, a majestosa manifestação de Rāma nessa ocasião é reveladora para o devoto perspicaz. Em seu comentário sobre o Caitanya-bhāgavata, Bhaktisiddhānta Saraswatī Ṭhākura escreve que a diferença entre o encontro de Rāma com suas gopīs em Rāma Ghāṭa e a rāsa-līlā de Kṛṣṇa está na maryādā, em oposição à rāga. Em outras palavras, os relacionamentos amorosos de Rāma não são um exemplo da kāma-rūpā-bhakti vivenciada entre Rādhā e Kṛṣṇa, mas, sim, de bhakti no humor de maryādā — vaidhī-bhakti. Por outro lado, o amor fraternal de Rāma é um exemplo da rāga-bhakti denominada sambandha-rūpa, que envolve dāsya, sakhya ou vātsalya-rati. Assim, a rāsa-līlā de Balarāma, como Vṛndāvana dāsa se refere ao seu casamento gandharva em Rāma Ghāṭa, é anticlimática no capítulo em que é descrita. De fato, os teólogos Gauḍīyas que comentam essa līlā enfatizam o fato de que Rāma tem suas próprias gopīs apenas para afirmar categoricamente que ele não se relaciona com as gopīs de Kṛṣṇa, e não abrem nenhuma janela para o relacionamento de Rāma com suas esposas pela qual um sādhaka possa passar.