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Não Violência Espiritual: Do Centro do Campo de Batalha ao Centro da Bem-Aventurança

Por Swāmī Śrī Bhaktivedānta Tripurāri

A Bhagavad-gita, um diálogo entre Krishna e Arjuna, é proferido em um campo de batalha antes do início de uma guerra civil; ainda assim, dentro dessa conversa, Krishna menciona ahiṃsa (não violência) três vezes. No décimo capítulo, Krishna refere-se à ahiṃsa como uma das qualidades nobres que emanam dele mesmo (10.5); e, no décimo terceiro capítulo, Krishna menciona a não violência, juntamente com outras qualidades, como exemplos de conhecimento (13.8). No décimo sexto capítulo, quando Krishna descreve as qualidades das pessoas divinas, a ahiṃsa é novamente mencionada (16.2). Apesar dessas referências, pode ainda parecer que a ahiṃsa não é um tema predominante da Gita; no entanto, se olharmos mais de perto, veremos que a não violência espiritual está, na verdade, no coração do texto, que afinal é um livro sobre yoga.

Voltando-se para o Interior

Ahiṃsa faz parte da base ética da yoga, um modo de caminhar no mundo que torna possível sentar-se em meditação (dhyana). Para ativar a dimensão mental de nossas vidas, é necessário silenciar a dimensão física. Por exemplo, se quisermos pensar profundamente, pode ser necessário fechar a porta, desligar a televisão, aquietar as crianças, e assim por diante. Isso é um começo, mas a yoga destina-se a nos levar além das dimensões física e mental, explorando-as ao máximo, descobrindo suas limitações e, por fim, percebendo até que ponto nossos sentidos e a mente nos oprimem.

Karma

Após todo o nosso esforço mundano, queremos desfrutar dos frutos do nosso trabalho. Estamos apegados a desfrutar dos resultados de nossas atividades, e esse apego orienta a maneira como caminhamos no mundo. Infelizmente, a ação motivada por esse apego não é propícia à prática da meditação. Na mesma medida em que desfrutamos dos frutos do nosso trabalho, contraímos uma dívida equivalente. Este é o princípio do karma. À medida que tomamos do mundo, contraímos dívida e, como resultado, permanecemos ocupados nele, na esperança de manter o que temos ou de obter o que desejamos. Por meio de tal esforço, imaginamos que seremos realizados. Estamos distraídos, apegados a buscar os frutos de nossas ações. Devemos abandonar o apego e aprender a agir por dever. Este é o primeiro estágio do amor.

Renúncia

Quando vemos, ouvimos, saboreamos ou tocamos, nossa mente faz uma determinação: “Isto é bom; aquilo é ruim. Isto é feliz; aquilo é triste.” Mas o seu bom pode ser o meu ruim; a sua felicidade pode ser a minha tristeza. Como resultado, estamos em desacordo uns com os outros. Quão bem as determinações da mente nos ensinam sobre a natureza do ser, quando essas mesmas determinações nos afastam uns dos outros? Da mesma forma, podemos formar um relacionamento com outra pessoa porque sentimos que precisamos dela para nos tornar completos. Não permitimos que essa pessoa tenha uma vida própria, pois a vemos apenas em relação às nossas necessidades percebidas. Nossa compreensão dessa pessoa é distorcida, pois a consideramos uma coisa, um objeto que nos satisfará ou completará.

Ao mesmo tempo, nossa identidade, nosso senso de eu, permanece incompleto, pois nosso senso de “eu” deriva do nosso senso de “meu”. Se você realmente possui algo, pode mantê-lo. Se você não pode mantê-lo, até que ponto você realmente o possui? Queremos alcançar um senso duradouro de eu que seja feliz, mas como podemos obter uma felicidade duradoura em relação a coisas que não perduram? Para manter um senso de eu baseado em apegos, precisamos tomar dos outros e do ambiente. Em algum nível, precisamos cometer violência para sustentar nosso senso material de eu. No entanto, quando nos afastamos de uma orientação material, adquirimos a capacidade de nos voltar para o interior. Gradualmente, passamos a conhecer um senso duradouro de eu que não necessita nem deseja tomar dos outros. Isso é a verdadeira ahiṃsa.

É isso que Krishna ensina no primeiro capítulo da Gita. Arjuna pergunta a Krishna: “Quem está aqui para lutar?”, e Krishna conduz a carruagem de Arjuna para o meio dos dois exércitos, mostrando-lhe que está prestes a lutar contra Bhishma e Drona. Ao parar diante de Bhishma e Drona, Krishna está dizendo: “Estes são os seus apegos, que criam um senso de identidade que não pode perdurar. Seus apegos definem aquilo que você pensa que é; portanto, você precisa lutar consigo mesmo.” Nesse sentido, nosso senso material de eu nos força a matar outros para viver. Em vez disso, devemos “matar” nosso ego apropriador, nossa identidade derivada do apego material. Como fazemos isso? Na Gita, Krishna ensina um tipo específico de dar — bhakti — que consiste em dar no lugar certo, da maneira correta. Por meio desse tipo de dar, o ato de tomar é automaticamente reduzido, e passamos a nos sentir realizados.

Lila e Karma

Quanto mais nos voltamos para o interior, além do domínio opressor da mente e das exigências dos sentidos, passamos da quietude da paz para a plenitude do amor. Quanta possibilidade existe aí! Entramos na primeira fase do amor por meio do desapego. Ao não tomar e não explorar, praticamos ahimsa. No entanto, ainda descobrimos que há algo positivo a ser feito, e isso é o que chamamos de lila: agir a partir da alegria, em vez da necessidade percebida. A plenitude da alegria nos leva a nos mover em celebração. Chamamos isso de rasananda, o êxtase amoroso eterno. Outro nome de Krishna é “Rasaraja”, que indica sua capacidade de reciprocar com qualquer tipo de amor. Ele deseja nos levar ao seu lila, onde se experimenta o rasananda. Na Bhagavad-gita, Krishna nos diz como chegar lá — da violência à não violência e, além disso, à lila.

Erradicando nossa Tendência à Violência

Em certo sentido, a lição da Gita é: “Médico, cura-te a ti mesmo.” Nós somos o problema. Comece de forma pequena, comece por si mesmo. Pode parecer pequeno, mas é imenso. Elimine a maldade de si mesmo. Isso é muito mais difícil do que dizer aos outros para deixarem de cometer violência, embora isso também deva ser feito. O poder de falar de forma convincente e de influenciar a violência dos outros dependerá da medida em que você tiver eliminado a violência de si mesmo. Só então você poderá contribuir com uma solução para o coração da questão. Este é um chamado imenso. Há esperança para o mundo se você puder corresponder a esse chamado — esperança para todos nós.

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