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A Geografia Sagrada de Vraja

Por Swāmī Śrī Bhaktivedānta Tripurāri

Na terminologia purânica antiga, “Terra” refere-se ao Bhū-maṇḍala, dentro do qual encontramos Bhāratavarṣa, que corresponde aproximadamente, em um sentido geográfico amplo, ao que hoje chamamos de subcontinente da República da Índia. Ali encontramos, na terminologia atual, aquilo que poderia ser chamado de uma espécie de “excepcionalismo oriental”: uma riqueza que o Ocidente perdeu em sua orientação colonial.  Sim, o Ocidente tem algo importante a aprender com o Oriente. Como afirmou o historiador Arnold Toynbee: “… Um capítulo que teve um começo ocidental terá de ter um desfecho indiano, se não quiser terminar na autodestruição da raça humana.”

Bhārata — a Índia — ainda hoje é frequentemente chamada pelo Ocidente de mãe mística de todas as religiões. Desde sua forma de saudação — namaste —, que reconhece e honra a ātma em nosso vizinho, passando por sua ahiṃsā, que reconhece ainda mais a realidade subjacente de caráter panpsíquico — as ātmas em tudo o que possui vida —, até sua metodologia — yoga/sādhana —, que Merton buscou com empenho e que pode ser facilmente adaptada para outras tradições espirituais, sua inclusividade em relação a outras tradições espirituais que buscam dissolver o ego e, por fim, seus ensinamentos detalhados sobre a natureza da vida após a morte, o sanātana-dharma de Bhārata, a filosofia perene, é inestimável pelo preço de uma fé meramente bem fundamentada. A visão de mundo de Bhārata, tal como apresentada nas escrituras, resume-se ao pensamento de que menos significa muito mais: a riqueza de nossa perspectiva humana, oculta na capacidade subjacente de nossa ātma de amar, de dar. E é na Vraja pastoral, dentro do Bhārata-varṣa do Bhū-maṇḍala, que o coração da Divindade desce como o objeto perfeito do amor. Mais precisamente, Kṛṣṇa — o coração hindu da Divindade — desce ao nosso modo de percepção sensorial juntamente com sua morada — Vraja —, que é uma extensão de seu próprio eu, sobrepondo-se a um determinado conjunto de coordenadas cartesianas.

Assim, Vraja não existe fisicamente como tal, mas, à semelhança da realidade virtual dos computadores atuais, faz-se com que ela pareça estar limitada a uma determinada área geográfica, e isso com o propósito de facilitar a līlā de Deus em forma humana. Assim, aqueles que peregrinam até Vraja, 145 quilômetros ao sul de Nova Délhi, na fronteira com o deserto do Rajastão, mas não se associam aos sādhus que vivem ali em consciência espiritual nem lhes prestam serviço, na verdade não visitam Vraja — um lugar do qual, de fato, não se retorna. Essa geografia sagrada se apresenta de uma maneira aos nossos dois olhos materiais e de outra, completamente diferente, ao olho meditativo ióguico, e ainda mais diferente aos nossos dois olhos quando ungidos com o amor espiritual — prema.

No mundo de hoje, o espaço geográfico “real” deu lugar a espaços delimitados apenas por nossa imaginação mediada pela tecnologia. Daqui a uma ou duas gerações, as paisagens virtuais talvez sirvam como as principais metáforas sobre as quais se fundamentam nossas atitudes e valores, tornando secundários os espaços geográficos que desempenharam essa função no passado. E, da perspectiva do Bhāgavata, a realidade geográfica é apenas virtual, enquanto as paisagens interiores e sagradas são, em comparação, mais reais.

O Bhū-maṇḍala do Bhāgavata — a Terra —, segundo sua própria descrição, é um sistema planetário intermediário, no qual se pode experimentar tanto o sofrimento infernal quanto o deleite celestial, em igual medida, como consequências das próprias ações. Como o Bhāgavata postula citta, ou consciência e, portanto, responsabilidade, como um aspecto da matéria psíquica, ele também postula que a matéria física que surge da matéria psíquica contém uma expressão correspondente dessa consciência, na forma de princípios morais que, portanto, têm fundamento ontológico. Em princípio, existe um bem real e um mal real, um dharma que está além da mera convenção humana, cujos detalhes — as leis morais — são determinados com referência aos textos sagrados e à aplicação da razão, levando em consideração o tempo e as circunstâncias — uma perspectiva espiritual, porém consequencialista, sobre a moralidade. No entanto, a correção moral não passa de uma jaula para domesticar os impulsos animais da humanidade e não constitui verdadeira espiritualidade. O bem moral jamais pode se igualar ao Bem supremo e, de fato, às vezes pode até ser um obstáculo no caminho do Bem. Uma vez domesticados, estamos aptos a sair da jaula e então aprender a arte de estar no mundo, mas não pertencer a ele, deixando de ser alguém que toma para nos tornarmos alguém que dá, ainda que nossas próprias ações possam continuar semelhantes àquelas movidas pela exploração e pela aquisição — ações semelhantes, porém impulsionadas por uma motivação sem egoismo.

O amor — o ato de dar —, nascido do ventre do sacrifício, é para onde o Bhāgavata aponta na busca pelo Bem que está no cerne do que significa ser um humano. Assim, o Bhāgavata se concentra menos em qualquer sistema de punição e recompensa como consequências morais do que no impulso humano em direção ao amor, que é tanto a maior fraqueza da humanidade quanto sua maior força. Ele faz isso concentrando-se no objeto perfeito do amor, Deus em sua līlā de forma humana — Kṛṣṇa.

Intuitivamente, sabemos — e isso também pela nossa própria experiência — que dar é receber. Cristo também nos ensinou isso e, como acontece com todas as verdades espirituais, essa instrução não é algo alheio à nossa experiência humana nem um mandamento opressivo, mas, antes, uma instrução que ressoa com nossa sensibilidade humana. Essas sensibilidades humanas, levadas às suas implicações filosóficas, são o que constitui Vraja — o ato ininterrupto e desmotivado de dar que se torna possível quando nosso ato de dar está centrado no objeto perfeito do amor.

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