Por Swāmī Śrī Bhaktivedānta Tripurāri Mahārāja
A consciência existe não como um ponto unidimensional, uma linha bidimensional ou um sólido tridimensional. Ela tem quatro dimensões. Cada uma de suas dimensões consiste em experiências sucessivamente mais profundas de si mesma. Da vigília ao sonho, à experiência do sono profundo e além, a experiência do eu se aprofunda.
Todos nós temos experiência das dimensões da consciência correspondentes à vigília e ao sonho. Nesses domínios, a alma experiencia a realidade física e psíquica, mas permanece adormecida para si mesma. No sono profundo sem sonhos, quando as dimensões física e psíquica se recolhem, continuamos a experienciar. Ao despertar, lembramo-nos de que dormimos bem. Só podemos nos lembrar daquilo de que tivemos experiência. Podemos nos lembrar de coisas que nunca experienciamos diretamente, como uma montanha de ouro, mas não sem antes termos experienciado tanto o ouro quanto uma montanha. Lembrar a experiência pacífica do sono sem sonhos equivale a uma experiência vaga, porém definida, da alma, uma existência independente do pensamento e dos objetos do pensamento.
O pensamento tem um fundamento do qual surge. O pensamento e seu objeto são experienciados como distintos um do outro; ainda assim, um não tem significado sem o outro. A partir disso, podemos conjecturar a existência de um domínio do qual ambos emergem e no qual deixam de ser distintos (não dualidade). O próprio pensamento está fora do eu, assim como está (e ainda mais) o mundo objetivo. Onde o pensamento encontra o objeto e o juízo subsequente nos leva a “conhecer”, podemos conhecer tudo, exceto nosso próprio eu e nossa fonte. Como vemos pelo exemplo de testemunharmos nossa própria existência no sono profundo, a própria consciência, desimpedida pelo corpo e pela mente, é o fundamento do qual surgem os pensamentos e, subsequentemente, os objetos, produzindo o mundo da dualidade. No sono profundo, vamos além das dimensões psíquica e física da consciência, e aí experimentamos paz; porém, não podemos permanecer nessa realidade, nem podemos apreciá-la em plena consciência. Não obstante, ela nos leva a tomar conhecimento da dimensão da consciência pura. Ela é mais do que um postulado moral, como conjecturou Kant. Para o vedantino, essa dimensão da consciência pura é uma realidade ontológica: o fundamento do ser. É uma dimensão que podemos alcançar quando um aprofundado exercício da mente nos conduz à compreensão da futilidade tanto do mundo mental quanto do mundo físico.
Indo além do corpo, realizamos o poder da mente; e, indo além do poder do pensamento, realizamos o eu. Ao alcançarmos os limites do raciocínio, somos conduzidos em direção a nós mesmos. Só podemos alcançar esse eu não apenas parando de atender às exigências do corpo, mas também parando de pensar. O que o vedantino sugere não é irracional; antes, continua de onde o raciocínio chega ao seu limite. Ele nos convida a experienciar o domínio da alma propriamente dita, em vez de meramente pensar sobre ele.
Mas como, e por que, deveríamos tentar ir além da terceira dimensão, tendo encontrado o eu? O que, em nossa experiência na dimensão de vigília da consciência, nos levaria a acreditar que existe uma dimensão da consciência que está além de nós mesmos? Todos nós existimos e, em certo sentido, existimos em nós mesmos, como unidades de consciência não dual. Nisso somos um; contudo, não podemos negar que também não somos inteiramente os mesmos, pois, embora sejamos um por sermos consciência e possuirmos vontade, não exercemos todos a vontade da mesma maneira. Se há algo que todos buscamos, contudo, é a comunhão uns com os outros, e isso sem abrir mão de nós mesmos.
Essa comunhão envolve reconhecer a necessidade que todos compartilhamos. Além disso, envolve compreender que essa necessidade só será satisfeita mediante o reconhecimento de algo maior do que nós mesmos. Nós nos unimos em torno de uma causa comum que transcende nossas necessidades egoístas. Viver em conjunto requer que nos entreguemos, e essa entrega do eu atinge seu ápice no amor. Misteriosamente, descobrimos que, ao nos entregarmos, nós mesmos somos nutridos. Essa experiência do estado de vigília deveria nos levar à conclusão de que existe uma dimensão da experiência, da consciência, na qual, ao nos entregarmos, recebemos algo maior. Essa experiência maior é o princípio unificador da existência. Se assim é, devemos procurá-la na terra do eu, além dos objetos e dos pensamentos. Da terceira dimensão da consciência devemos passar à quarta; depois de encontrarmos a nós mesmos, devemos ingressar no domínio do auto-esquecimento.
A quarta dimensão é o fundamento de nossa existência. Para o vedantino, ela é percebida de diferentes maneiras: como consciência indiferenciada, ou como um relacionamento com o divino. Quanto a esta última concepção, os vedantinos do Gaudiya de Sri Caitanya concluem que o amor é maior do que nós mesmos e constitui o aspecto mais elevado de Deus, um aspecto pelo qual ele próprio é movido. Para eles, a consciência não dual da filosofia Vedanta é realizada quando compreendemos que não pertencemos a nós mesmos, muito menos que algo nos pertença. Se há algum momento em que podemos dizer com propriedade que algo nos pertence, é quando, tendo nos entregado em amor a Deus, podemos dizer: “ele é nosso.”
Se a realização de Deus é a quarta dimensão da consciência, então a concepção dos vedantinos Gauḍīya acerca do amor a Deus — na qual Deus se torna nosso — é revolucionária. Os Vedantinos Gaudiya desejam conduzir-nos para além até mesmo dessa quarta dimensão. Se entregamos nossa alma para nos tornarmos propriedade de Deus, ele assume o papel de nosso mantenedor. Contudo, se ele é nosso, então fica subordinado ao nosso amor, de tal modo que sua Divindade é suprimida por esse amor. Essa é a concepção da Divindade de Kṛṣṇa: uma concepção na qual Deus não aparece como Deus, nem as almas finitas como almas finitas. Ambos se relacionam intimamente como amante e amado, Krishna e suas gopis, para além de qualquer consideração acerca da realidade ontológica um do outro, mas também para além da ilusão material. Essa dimensão do amor por Deus é, portanto, justamente denominada pelos Gaudiya Vaishnavas de quinta dimensão, turya-titah, a dimensão da Alma da alma.