Publicado em 11 de julho de 2001. Artigo original
Todos nós já ouvimos dizer que o kīrtana — o canto dos nomes de Deus — é muito eficaz na Kali-yuga. Não se trata apenas de uma afirmação sectária de nossa tradição, mas da ênfase que Caitanya Mahāprabhu dava a princípios universais relativos à eficácia do som e à divindade do nome de Deus — princípios reconhecidos tanto no mundo religioso quanto no secular. Se observarmos como o nome de Deus é concebido nas diversas tradições religiosas e como o som é importante em nossa vida cotidiana, poderemos compreender melhor a universalidade do princípio que Caitanya Mahāprabhu procurou enfatizar e colocar no centro de sua missão. E, se examinarmos mais profundamente essa ênfase de Mahāprabhu, encontraremos também outro princípio universal: o poder do amor de conquistar tudo. No ensinamento de Mahāprabhu, isso inclui até mesmo o próprio Deus.
O mundo tecnológico moderno ainda explorou muito pouco o potencial do som, sobretudo se compararmos isso ao uso que já fez do fogo, da água e da terra. Talvez isso ainda esteja por vir, pois deveria ser evidente que o potencial do som é enorme. Nossa mente, por exemplo, em um sentido muito básico, funciona em termos de aceitação e rejeição — saṅkalpa-vikalpa —, e ambas são movidas pelo som. O som ajuda a mente a transformar pensamentos em ideias e também a desfazer essas ideias. Assim, todo o sistema mental de cada indivíduo é profundamente afetado pelo que ouve e pelo que fala. Todos sabem que, em uma campanha militar, se conseguirmos assumir o controle dos meios de comunicação, podemos controlar as massas. Quando os invasores chegam, um de seus principais objetivos é capturar os sistemas de comunicação, isto é, os meios pelos quais o som é transmitido. De muitas maneiras práticas, podemos compreender a importância do som em nossa vida, embora provavelmente não pensemos muito nisso.
Caitanya Mahāprabhu, porém, compreendia muito bem o alcance da influência do som. Os ṛṣis védicos também refletiram profundamente sobre isso. Os vaiṣṇavas dizem que ver é, na verdade, uma questão de ouvir. Darśana, visão, está relacionado à audição. Diz-se que o vaiṣṇava vê com os ouvidos, porque sua visão é guiada pelos sons das escrituras. Segundo a metafísica das escrituras védicas, todo o mundo material é produto do som.
Os ṛṣis consideravam que o mundo surge do som e que a existência material também pode ser transcendida por meio do som. O Vedānta-sūtra conclui com as palavras anāvṛttiḥ śabdād anāvṛttiḥ śabdāt. Isso significa que, uma vez transcendida a existência material, não se retorna a ela. Por que isso acontece? Por causa da palavra, por causa de śabda, do som, de śruti-pramāṇa, ou evidência escritural, que assim o afirma.
Esse som, essa evidência escritural, é difícil de compreender. Ele atua em quatro níveis. No Śrīmad Bhāgavatam, afirma-se:
śabda-brahma su-durbodhaṁ
prāṇendriya-mano-mayam
ananta-pāraṁ gambhīraṁ
durvigāhyaṁ samudra-vat
“O som espiritual dos Vedas é muito difícil de compreender. Ele se manifesta no ar vital, nos sentidos e na mente. Esse som védico é ilimitado e insondável, assim como o oceano.” (SB 11.21.36)
O som védico divide-se em quatro fases, três das quais estão situadas dentro do ser vivo. Somente a quarta divisão se manifesta externamente como fala. Mesmo essa quarta fase do som védico é muito difícil de compreender. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura explica essas divisões da seguinte maneira: a fase do som védico relacionada ao prāṇa, conhecida como parā, situa-se no ādhāra-cakra; a fase mental, conhecida como paśyantī, situa-se na região do umbigo, no maṇipūraka-cakra; a fase intelectual, conhecida como madhyamā, situa-se na região do coração, no anāhata-cakra. A fase manifesta e sensorial do som védico é chamada vaikharī. Esse som védico abrange todas as energias vitais dentro do universo e para além dele e, por isso, não está sujeito às divisões de tempo e espaço.
Só podemos esperar compreender a amplitude da sabedoria védica ouvindo seus sons com atitude receptiva, e devemos ouvi-los repetidamente da fonte adequada. Ouvir e entoar repetidamente os sons védicos deixará uma impressão espiritual em nossa consciência, conduzindo-nos a uma compreensão abrangente da natureza da realidade.
Nossa maneira de agir no mundo é moldada por certas impressões. Essas impressões são chamadas de saṁskāras. Se eu esfregar uma corda contra uma pedra, você não verá nada a princípio; mas, se eu repetir o movimento por muito tempo, a corda começará a deixar uma marca. Com o tempo, a repetição dessas impressões nos inclina para determinadas coisas. As impressões de vidas passadas nos levam a agir de determinada maneira, a ter certas tendências, a apreciar um tipo específico de música e assim por diante.
Sob a influência do som védico, duas coisas acontecem gradualmente: nossos saṁskāras anteriores são eliminados, e uma nova impressão é criada, por meio da qual passamos a enxergar com clareza. No momento da iniciação espiritual, forma-se uma impressão — um saṁskāra — voltada para a bhakti. Depois, para nutrir essa impressão, são dadas instruções com considerável ênfase na repetição do nome de Deus.
Entre os sons védicos, o nome de Deus recebe especial ênfase. Rūpa Gosvāmī afirma isso no primeiro verso de seu Nāmāṣṭakam: nikhila-śruti-mauli-ratna-mālā. A raiz do śruti, o núcleo formado pelas Upaniṣads essenciais, é comparada a uma guirlanda de joias, e essas joias irradiam luz. E onde elas lançam essa luz? Sobre o santo nome de Kṛṣṇa. Os Vedas contêm uma vastíssima gama de conhecimentos e são formados por uma verdadeira selva de sons. Em quais desses sons devemos concentrar nossa atenção? Entre todos os sons, o som do nome de Deus é o mais eficaz e, segundo Śrī Caitanya Mahāprabhu, entre todos os nomes de Deus, Kṛṣṇa-nāma é o mais glorioso.
O mundo religioso está familiarizado com a ideia de que o nome de Deus possui poder. O termo grego “teologia” esteve originalmente ligado à divindade presente nos nomes de Deus. Hoje, o termo passou a designar uma espécie de ciência divina: a lógica (logica) da divindade (theo). Anteriormente, porém, o termo era usado em relação aos nomes dos deuses. Os gregos tinham muitos deuses e também uma pessoa especialmente encarregada de invocar seus nomes. Essa pessoa era chamada de teólogo. Ela pronunciava determinados nomes em momentos específicos para invocar a influência de determinados deuses com finalidades específicas. Em muitos aspectos, isso constituía a própria essência da religião para os gregos.
Mesmo no mundo secular, os nomes têm poder. Antigamente, as pessoas não revelavam seu nome com facilidade. Hoje isso também é verdade, mas, no Brasil, os nomes foram substituídos pelos números do CPF. Ninguém fornece seu número do CPF com facilidade. Por quê? Porque quem o conhece pode exercer controle sobre você. Se alguém souber seu número do CPF, poderá descobrir praticamente tudo sobre você. Assim, os números substituíram os nomes, mas o princípio permanece o mesmo: conhecendo o nome de uma pessoa, pode-se conhecer tudo sobre ela. Foi isso que Caitanya Mahāprabhu ensinou acerca do santo nome de Kṛṣṇa e do próprio Kṛṣṇa. Os dois — o nome e o nomeado — são um só. Ao conhecer verdadeiramente Seu nome, conhece-se a Ele.
Na tradição judaica, o nome de Deus é considerado tão sagrado que não pode ser pronunciado. Na Bíblia, há considerável ênfase no nome de Jesus. Diz-se que, por meio de seu nome, você será salvo. Entre os diversos santos dos séculos XV e XVI na Índia, houve uma reação ao chamado monopólio smārta sobre a salvação, segundo o qual, para alcançar a salvação, era necessário primeiro nascer em uma família de brāhmaṇas e depois aceitar sannyāsa. Houve uma espécie de rebelião contra isso, baseada na ideia de que Deus era mais acessível às pessoas. Os movimentos de bhakti defenderam essa concepção. Eles a expressaram dando grande ênfase ao nome de Deus. Nānak, Kabīr e outros atribuíram grande importância ao nome de Deus como meio para alcançar a salvação. Eles viam os nomes de Deus — Hari, Rāma, Kṛṣṇa — como um meio para alcançar o estado de Brahman, que está além dos nomes. Para Kabīr, nada era mais importante na prática espiritual do que o nome de Rāma. Guru Nānak enfatizou sat-nāma, e sua escritura está repleta de glorificações dos nomes Rāma e Kṛṣṇa.
Acima de todas essas tradições religiosas, encontramos a concepção de Śrī Caitanya Mahāprabhu acerca do nome de Deus. Caitanya Mahāprabhu foi, em sua época, o mais destacado defensor de bhakti e nāma. Ele fez do nome de Deus um dharma, uma religião.Seus seguidores desenvolveram essa ideia em grande detalhe e, assim, temos uma teologia do nome, nāma-dharma. A importância desse nāma–dharma e a posição ontológica de Kṛṣṇa-nāma foram sendo reveladas ao longo do tempo, à medida que os devotos de Mahāprabhu aprofundavam sua compreensão acerca do significado de seu advento.
A princípio, o nāma era considerado nāma-avatāra, o avatāra de Deus em forma de sílabas. Acreditava-se que as sílabas kṛṣ-ṇa eram investidas (āveśa) da potência de Deus, o que fazia de Kṛṣṇa-nāma um āveśa-avatāra. Mas, gradualmente, essa compreensão foi superada pela constatação de que Kṛṣṇa e Seu nome são a mesma realidade — abhinnatvān nāma-nāminoḥ, nāma-nāminoḥ abheda.
Seria possível exaltar ainda mais o nome de Kṛṣṇa? Se exaltamos o nome de Deus a ponto de demonstrar, por meio da teologia, da filosofia e das escrituras, que o nome de Deus não é diferente do próprio Deus, que exaltação maior poderia haver? Rūpa Gosvāmī leva essa ideia ainda mais adiante. O Nome e Aquele que é nomeado não são diferentes, mas, se examinarmos a questão mais de perto, veremos que também há uma diferença. Qual é essa diferença? O Nome é mais misericordioso do que Aquele que é nomeado. Nenhuma tradição leva tão longe esse princípio universal acerca do som e do nome quanto o Gauḍīya Vaiṣṇavismo, que confere ao Nome ainda mais reverência do que Àquele a quem ele se refere.
kali-kāle nāma-rūpe kṛṣṇa-avatāra. Às vezes ouvimos devotos dizerem: “Ah, Caitanya Mahāprabhu veio há quinhentos anos; Kṛṣṇa veio há cinco mil anos. Se ao menos eu estivesse lá naquela época, que afortunado eu seria!” Mas eles não compreenderam o ensinamento de Caitanya Mahāprabhu: nāma prabhu está aqui agora! E Kṛṣṇa-nāma nos foi concedido. Se aproveitarmos essa oportunidade e lhe dermos a devida atenção, quão afortunados poderemos nos tornar?
Jayadeva Gosvāmī disse algo maravilhoso: “Ó hari-nāma! Vindo de um sādhu, você entra por meus ouvidos e chega ao meu coração; e, à medida que minhas lágrimas caem ao chão, elas amolecem a argila, para que outros possam reconhecer e seguir o caminho que trilhei!” Assim, hari-nāma prabhu tem seus próprios planos.
Nāma prabhu, kṛṣṇa-nāma, tem Seus próprios planos. Diz-se que não devemos manter apegos materiais enquanto cantamos. Se pronunciarmos sinceramente o nome de Kṛṣṇa, nossos apegos materiais se tornarão evidentes para nós. À medida que forem se revelando, devemos abandoná-los. Não é fácil abandoná-los, mas é necessário fazê-lo. Caso contrário, eles voltarão a nos assombrar até mesmo em nossa próxima vida. Se lidarmos com eles nesta vida, o cultivo espiritual será muito mais fácil na próxima. Precisamos encarar nossos apegos com determinação. Isso não significa que devamos travar uma batalha contra eles, tentando vencê-los como um budista zen cheio de si ou um grande jñānī estudando as Upaniṣads.Não, não dessa maneira, mas chorando em total desamparo enquanto cantamos o nome de Kṛṣṇa.
A alma pode despertar. Ela é capaz de muito mais do que apenas filosofar. E esse despertar vem da boa associação. Por meio de sādhu-saṅga, sabemos que Nāma prabhu é a manifestação mais misericordiosa de Kṛṣṇa. Por isso, devemos depositar Nele todas as nossas esperanças. Sem qualquer orgulho de nós mesmos, mas com profunda reverência por Hari Nāma e chorando como Jayadeva, devemos nos lembrar do que Mahāprabhu disse:
tṛṇād api sunīcena
taror api sahiṣṇunā
amāninā mānadena
kīrtanīyaḥ sadā hariḥ
Esse tipo de canto será eficaz. Isso é niṣṭhā. Quando a única perspectiva que vemos na vida é kīrtanīyaḥ sadā hariḥ e nos mantemos firmes nela, as lágrimas virão. O Nome dançará no pátio do nosso coração e, por meio das lágrimas que fará brotar de nossos olhos, amolecerá o chão sob nossos pés, para que outros possam seguir nossas pegadas. Por meio de nossas lágrimas, Ele guiará outros e revelará os planos que pretende realizar.
Estamos acostumados a colocar as coisas a serviço de nossos próprios planos, tirando-as do bolso para sustentar causas concebidas por nossa mente. Não devemos tentar fazer isso com Śrī Nāma prabhu. Reunimos conhecimento para promover nossos próprios objetivos, mas Kṛṣṇa-nāma incorpora um tipo diferente de conhecimento. Sua natureza é inteiramente distinta. Ele tem propósitos próprios, muito elevados, e nossa alma está incluída neles.
Mahāprabhu disse: śrutam apy aupaniṣadaṁ dūre hari-kathāmṛtāt. Os mantras das Upaniṣads estão muito distantes de hari-kathā. O que pode acontecer ao dizermos “ahaṁ brahmāsmi”, “tat tvam asi”? Que tipo de transformação isso pode trazer em nossa vida? Alguma transformação certamente ocorrerá, mas ela não será tão profunda e abrangente quanto aquela que hari-nāma pode trazer. Pela graça de Hari Nāma, podemos não apenas sair do mundo de nascimentos e mortes, mas também entrar no mundo do êxtase — kampāśru-pulakādayaḥ. Mahāprabhu ensina não apenas que a transformação produzidapor Kṛṣṇa-nāma é profunda e abrangente, mas também que não há regras que restrinjam o canto do santo nome de Kṛṣṇa. Muitas regras estão associadas ao canto dos mantras védicos, mas Kṛṣṇa-nāma Se distribui livremente a nós conforme a fé que depositamos Nele — uma fé despertada por Ele próprio.
Rūpa Gosvāmī descreve Caitanya Mahāprabhu caminhando até Purī com um cordão de nós nas mãos, contando-os enquanto canta em voz alta o Hare Kṛṣṇa mahā–mantra: “hare kṛṣṇa hare kṛṣṇa kṛṣṇa kṛṣṇa hare hare hare rāma hare rāma rāma rāma hare hare.” Esse nāma-mantra também é mencionado nas Upaniṣads.
iti ṣoḍaśakaṁ nāmnāṁ
kali-kalmaṣa-nāśanaṁ
nātaḥ parataropāyaḥ
sarva-vedeṣu dṛśyate
hare kṛṣṇa hare kṛṣṇa
kṛṣṇa kṛṣṇa hare hare
hare rāma hare rāma
rāma rāma hare hare
Essa combinação dos nomes de Deus é a mais eficaz para a Kali-yuga. Sarva-vedeṣu dṛśyate: todos os Vedas afirmam isso. Por isso, damos tanta ênfase a esse mantra. Que qualquer pessoa cante esse mahā-mantra, em qualquer lugar e em quaisquer circunstâncias.
Qual é o segredo por trás desse mantra? O Hare Kṛṣṇa mahā-mantra fala, de maneira indireta e secreta, de algo muito doce. Hare Kṛṣṇa Rāma! Hare é Hari no vocativo. “Ó Hari! Ó Kṛṣṇa! Ó Rāma!” Mas a Gauḍīya sampradāya analisou isso mais profundamente e concluiu que Hare também pode significar Harā, um nome de Rādhā no vocativo. Indiretamente, a união divina de Rādhā e Kṛṣṇa é o tema desse sambhoga-mantra. Nesse mantra, os nomes Rāma e Kṛṣṇa estão cercados por Hare, Rādhā, por todos os lados. Kṛṣṇa significa Kṛṣṇa, e Rāma é outro nome de Kṛṣṇa, Ramaṇa. Rādhā é Hare, aquela que rouba a mente de Kṛṣṇa.
Esse mantra Hare Kṛṣṇa é tão agradável a Kṛṣṇa porque fala não apenas de Sua mais querida Śrī Rādhā, mas também do poder que Ela tem de subjugá-Lo. O nome Hare anuncia isso. Quando Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, nos ouve cantar isso, Ele dirá: “Você sabe disso a Meu respeito — que sou subjugado pela influência Dela? Sou o Deus Supremo e, ainda assim, Ela pode Me transformar em um louco que dança! Você sabe que Ela é Meu guru?” Se Kṛṣṇa nos ouvir cantar esse mantra secreto em voz alta, desejará nos silenciar levando-nos para Sua morada.
Tal é a glória do Hare Kṛṣṇa mahā-mantra e do ensinamento de Śrī Caitanya Mahāprabhu. Ele nos fala do poder do som, da divindade presente no nome de Deus e do poder do amor de conquistar tudo.