Por Swami Sri Bhaktivedanta Tripurari, extraído de seu novo livro, Círculo de Amigos, como parte de uma série de artigos sobre Balarāma Tattva.
Rūpa Goswāmī apresenta ao mundo a irmã de Śrī Rādhā, Anaṅga-mañjarī, em seu Rādhā-kṛṣṇa-gaṇoddeśa-dīpikā (1550). Não há nenhuma referência anterior a essa informação sobre a família em qualquer outro texto, seja Gauḍīya ou não. Ele o faz no contexto de sua descrição do irmão mais velho de Rādhā, Śrīdāma, o mais querido priya-sakhā de Kṛṣṇa:
Śrīdāma tem uma bela tez de cor śyāma que cativa a mente e veste trajes amarelos, juntamente com colares cravejados de joias. Ele é um esplêndido kiśora de dezesseis anos e o instigador de muitas brincadeiras. Ele é o mais querido priya-sakhā de Kṛṣṇa. Seu pai é o Rāja Vṛṣabhānu, e sua mãe é a casta Kīrtidā-devī. Śrīmatī Rādhārāṇī e Anaṅga-mañjarī são suas duas irmãs mais novas. (Rādhā-kṛṣṇa-gaṇoddeśa-dīpikā 2.37-39)
Além de nos revelar seu nome, Śrī Rūpa nos fornece outras informações significativas sobre Anaṅga — seu temperamento, sua tez e seu traje, bem como o nome de seu marido e o fato de que ela é querida pelas gopīs Lalitā e Viśākhā.
Sua tez se assemelha à da flor de ketakī em plena floração na primavera. Ela é encantadora, e seu nome, Anaṅga-mañjarī, lhe é apropriado, pois ela se assemelha ao broto da flor de Cupido. Seu vestido é da cor do lótus azul. Seu marido é o orgulhoso Durmada, cunhado de sua irmã. Ela é querida por Lalitā-devī e especialmente querida por Viśākhā.1 (Rādhā-kṛṣṇa-gaṇoddeśa-dīpikā 1.121–122)
Śrī Rūpa inclui Anaṅga entre as vara-sakhīs, que ele descreve da seguinte maneira:
Assim como há oito variṣṭha (supremamente exaltadas) gopīs, há também oito vara (exaltadas) gopīs. Todas as vara-gopīs têm doze anos de idade. Seus nomes são Kalāvatī, Śubhāṅgadā, Hiraṇyāṅgī, Ratnalekhā, Śikhāvatī, Kandarpa-mañjarī, Phullakalikā, e Anaṅga- mañjarī. (Rādhā-kṛṣṇa-gaṇoddeśa-dīpikā 97-98)
Embora duas dessas vara-sakhīs tenham o nome de mañjarī — Anaṅga e Kandarpa —, seus nomes não aparecem2 na lista de mañjarīs do Rādhā-kṛṣṇa-gaṇoddeśa-dīpikā. Assim, na perspectiva de Rūpa Goswāmī, essas duas são mañjarīs no nome, mas não na função. Elas atuam, em vez disso, como vara-gopīs, que, ao contrário das mañjarīs, não se opõem categoricamente a convites românticos pessoais de Kṛṣṇa. O mañjarī-bhāva caracteriza-se por ser dedicado exclusivamente ao bhāva de Rādhā e, portanto, por unir Rādhā a Kṛṣṇa, em vez de unir-se pessoalmente a ele. De fato, a relutância em ceder às tentativas de sedução de Kṛṣṇa é fundamental à lógica subjacente ao êxtase estético sagrado, ou rasa, das mañjarīs: para Kṛṣṇa, é mais prazeroso que alguém sirva e auxilie Rādhā em seus desejos românticos do que se entregue pessoalmente ao amor romântico com Kṛṣṇa, pois ninguém pode satisfazê-lo no amor romântico mais do que Rādhā.3
Assim, embora Anaṅga, tal como as mañjarīs de Rādhā, também se dedique ao serviço pessoal de sua irmã mais velha, ao contrário das mañjarīs de Rādhā, isso não implica abrir mão de um encontro amoroso com Kṛṣṇa caso a oportunidade surja, como de fato acontece. Em seu Muktā-carita, Raghunātha dāsa Goswāmī descreve o convite de Kṛṣṇa a Anaṅga e o quanto isso a encanta. Ela o aceita mentalmente, recebendo o convite de Kṛṣṇa “como um hino de flores adornando seus ouvidos, enquanto lhe lançava um olhar em resposta”, embora o caráter público daquele convite e o tom jocoso das palavras de Kṛṣṇa a tenham impedido de levá-lo adiante naquela ocasião em particular. Isto é, sua reação não foi a de uma mañjarī típica.
As referências acima a Anaṅga-mañjarī, juntamente com o epíteto que Raghunātha dāsa Goswāmī atribui a Rādhā — anaṅga-mañjarī-jyeṣṭhā — entre outros 107 nomes de nossa Deusa, constituem tudo o que os Seis Goswāmīs escreveram sobre ela. Mas, há algo mais que se possa dizer sobre ela? Teólogos posteriores consideram que sim, e alguns deles disseram muito mais. O objetivo deste artigo, porém, é examinar em que medida essas elaborações teológicas ampliam e enriquecem a perspectiva dos Goswāmīs e em que medida algumas delas podem contradizer sua visão. Como veremos, dadas as particularidades da posição dos teólogos posteriores acerca de Anaṅga-mañjarī, será necessário revisitar a compreensão dos Gosvāmīs sobre a natureza do irmão mais velho de Kṛṣṇa, Balarāma, que é fundamental para a reflexão deste texto sobre o círculo de amigos de Kṛṣṇa. Para isso, precisamos voltar-nos para a Gaura līlā e para a ilustre consorte de Nityānanda-rāma, Śrī Jāhnāva-devī.
Jāhnāva e sua irmã, Vasudhā, casaram-se com Nitāi ainda jovens. Elas são naturalmente identificadas, respectivamente, com Revatī e Vāruṇī, as consortes eternas de Balarāma. Ninguém sugeriu que as esposas de Nitāi sejam encarnações de alguma das gopīs de Vraja de Balarāma, as quais, como vimos no capítulo 2, na circunferência deste livro, são praticamente desconhecidas. De fato, Rūpa Goswāmī não menciona nenhuma delas em seu Rādhā-kṛṣṇa-gaṇoddeśa-dīpikā, uma obra destinada a elucidar os pārṣadas da Vraja līlā. O fato de ele não mencionar nenhuma delas individualmente pelo nome, nem mesmo como um grupo, reforça sua ênfase em conceber Balarāma em Vraja exclusivamente por meio da lente do amor fraternal.
Contudo, com o desaparecimento de Nitāi, que lançou uma luz especial sobre Jāhnāva, surgiram novas conjecturas teológicas acerca de sua identidade interior na Kṛṣṇa līlā. É possível que esse modo de pensar tenha surgido em conjunto com o fato de que, diante das obras recém-publicadas dos Gosvāmīs, Jāhnāva se identificou com o ideal de mañjarī-bhāva, ao qual a teologia dos Gosvāmīs dava destaque. Assim, o ideal de Jāhnāva não correspondia ao aiśvarya-bhāva de Revatī. Qual é, então, a sua identidade na Vraja līlā?
Jāhnāva fez a longa peregrinação até Vraja pelo menos duas vezes, senão três. Ali, em Rādhā-kuṇḍa, Gopīnātha, de pé à sombra de uma das árvores-dos-desejos de Vraja, revelou-se a ela, e mais tarde foi estabelecido um templo para comemorar sua visão. Contudo, aos olhos de Jāhnāva, a deidade de Rādhā que ficava ao lado de Gopīnātha era pequena demais. Assim, ao retornar a Bengala, ela mandou esculpir uma deidade de Rādhā maior e a enviou para substituir a menor. Mas, em vez de substituir completamente a deidade menor, os sacerdotes locais a designaram como Anaṅga, a irmã mais nova de Rādhā. Afinal, do ponto de vista artístico, era comum representar uma irmã mais nova fazendo-a menor em tamanho.4
Durante sua última peregrinação a Vraja, Jāhnāva deixou este mundo, e foi nesse período que os devotos começaram a sentir que tinham uma resposta para a questão da identidade de Jāhnāva na Vraja līlā. Alguns devotos identificaram Jāhnāva com Anaṅga mañjarī. De fato, a tradição sagrada da época afirmava que, ao falecer, ela entrou na deidade menor de Anaṅga.
Algum tempo depois da partida de Jāhnāva, Kavi-karṇapūra escreveu seu Gaura-gaṇoddeśa-dīpikā. Nessa obra, ele identifica Jāhnāva com Revatī, com a ressalva de que alguns devotos a consideram Anaṅga-mañjarī. Em seu livro, Kavi-karṇapūra apresenta diversas opiniões sobre as identidades na Vraja līlā dos pārṣadas da Gaura līlā e não faz nenhuma tentativa de determinar qual opinião está correta. Para Kavi-karṇapūra, às vezes há mais de uma resposta correta ou, simplesmente, ele deixa a cargo de seus leitores decidir qual opinião adotar. Mas de quem era a opinião de que Jāhnāva é Anaṅga-mañjarī?
Há razões para acreditar que, em vez de ter sido promovida pelos devotos de Vraja, a identificação de Jāhnāva com Anaṅga foi inicialmente difundida por seu filho adotivo e discípulo, Rāmāi Ṭhākura/Rāmacandra Gosvāmī, que a acompanhou até Vraja. Rāmāi Ṭhākura e Vīracandra, filho de Nityānanda e Vasudhā, tornaram-se ambos discípulos de Jāhnāva ainda jovens. Dos dois, Vīracandra Goswāmī é o mais conhecido, mas eles parecem ter divergido em questões teológicas. Contudo, não há dúvida de que Rāmāi Ṭhākura foi um devoto influente. Atribuir a Rāmāi a compreensão de que a identidade de Jāhnāva na Vraja līlā é Anaṅga-mañjarī é uma forma de elogiá-lo, pois essa compreensão, apesar de sua peculiaridade, foi considerada por Kavi-karṇapūra uma possibilidade distinta e, com o passar do tempo, acabou sendo, em sua maior parte, aceita sem questionamentos.
Mas examinemos criticamente essa perspectiva teológica. Talvez o que mais se destaque seja a ideia de que, dado que Jāhnāva é a principal consorte de Nityānanda-rāma, se ela é Anaṅga-mañjarī em Vraja, então Anaṅga de Vraja também é a principal śakti de Balarāma. Contudo, no drama da Vraja līlā não há nenhum indício disso. E, sob a perspectiva Gauḍīya, as śaktis de Balarāma em Vraja são claramente um grupo de gopīs sem nome associadas à comunidade Nāga. E, voltando-nos para os brāhmaṇas Ahivasi Gaur do Daujī Mandira, em Baldeo, encontramos Revatī consagrada como a principal consorte de Rāma, sem nenhuma menção a Anaṅga. Além disso, na perspectiva Gauḍīya de Rūpa Goswāmī, que entregou Anaṅga-mañjarī ao mundo, Anaṅga é uma vara-gopī que está romanticamente envolvida com o irmão mais novo de Balarāma e não tem nenhuma relação desse tipo com o próprio Balarāma. E como Rūpa Goswāmī poderia ter deixado de nos contar esse fato significativo acerca de Anaṅga em seu livro dedicado a revelar tais detalhes sobre os personagens do drama da Vraja līlā? Assim, destaca-se a ideia de que ela é a principal consorte de Nityānanda-rāma, mas não tem nenhuma relação desse tipo com ele em Vraja. Como ela pode ser a principal consorte de Balarāma e não ter com ele uma relação de mādhurya, ao mesmo tempo que mantém uma relação desse tipo com Kṛṣṇa? Além disso, relatos históricos das peregrinações de Jāhnāva a Vraja, em textos como o Bhakti-ratnākara, descrevem-na visitando os lugares onde Balarāma realizava seus passatempos com intenso anseio por ele — um anseio que não encontramos em Anaṅga-mañjarī. Assim, essas questões teológicas exigem uma solução, e parece que foi justamente isso que Rāmāi Ṭhākura se propôs a fazer, em defesa de sua compreensão inicial.
Tradução: equipe editorial
- Aqui, está implícito que ela é a irmã mais nova de Rādhā, sendo casada com o irmão mais novo do marido de Rādhā. “Anaṅga” é outro nome de Cupido/Kāmadeva, de quem se diz que é invisível ou desprovido de membros — anaṅga. Cupido aproximou-se de Śiva enquanto este estava em meditação e, ao ter sua meditação interrompida, foi consumido pelo olhar irado de Śiva. Assim, Cupido tornou-se desprovido de membros, ou invisível, e ainda mais formidável. ↩︎
- Alguns manuscritos posteriores desse texto de fato incluem o nome de Anaṅga na lista de mañjarīs de Rūpa, mas, como este artigo dará a entender mais adiante, é provável que sua inclusão em alguns manuscritos seja obra de outras pessoas. E a ausência do nome de Kandarpa-mañjarī na lista de mañjarīs de Śrī Rūpa, em qualquer edição do texto, serve como evidência adicional de que algumas gopīs podem ser mañjarīs apenas de nome. Assim, descrever Anaṅga-mañjarī dessa maneira não é algo sem precedentes. A posição de que ela é uma mañjarī apenas de nome também era defendida pelo falecido Ananta dāsa Paṇḍita, de Rādhā-kuṇḍa. Contudo, Dhyānacandra Goswāmī a descreve como uma mañjarī em seu Gaura-govindārcana-smaraṇa-paddhati. Ele também a descreve como discípula de Viśākhā e como a força vital de Rādhā. ↩︎
- Contudo, pode-se argumentar que Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura dá a entender, em seu Kṛṣṇa-bhāvanāmṛta, que, em uma rara ocasião, uma mañjarī pode, contra a sua vontade, considerar inevitável a investida de Kṛṣṇa. Ver Kṛṣṇa-bhāvanāmṛta 13.34. ↩︎
- Ainda hoje, os artesãos costumam confeccionar a deidade de Kṛṣṇa menor que a de Balarāma quando os dois são moldados juntos, como forma de indicar que Kṛṣṇa é o irmão mais novo de Rāma. ↩︎