Artigo original 22/06/2009
Deixando de lado as escrituras sagradas e os argumentos lógicos que sustentam a aceitação de suas conclusões, há algum outro argumento que sustente a ideia de um Absoluto concreto cuja forma seja ilimitada? Embora a forma mais elevada de revelação divina deva estar livre de sectarismo e, assim, representar a maior universalidade possível, ela também deve possuir a maior riqueza possível de conteúdo positivo.
O místico e filósofo russo Vladimir Solovyov cunhou a expressão “universalidade positiva” em sua tentativa de descrever o Absoluto. Ele contrapõe a universalidade positiva à ausência de propriedades determinadas e características distintivas. Em consonância com as Upaniṣads, ele sustenta que, na busca por uma religião universal e pela realidade espiritual última, não basta simplesmente eliminar todas as características distintivas do Absoluto. Isso porque, ao eliminar essas características, chegamos, na melhor das hipóteses, apenas ao menor denominador comum da religião. Chegamos ao mínimo de conteúdo religioso. Segundo seu raciocínio, uma forma tão abstrata de religião, independentemente do nome que receba, acaba levando ao niilismo e ao ateísmo.
Solovyov nos convida a ir além. Reconhecendo o princípio religioso geral que constitui o fundamento comum a todas as religiões, ele pedia a seus ouvintes que fossem ainda mais longe. “Quanto mais rica, viva e concreta é uma forma religiosa, mais elevada ela é. A religião perfeita não é aquela que está igualmente contida em todas as religiões [o fundamento indiferenciado da religião]; a religião perfeita é aquela que possui e contém em si todas as religiões [a síntese religiosa completa].” Esse é o significado de “Kṛṣṇa”, em quem todas as formas de amor encontram expressão transcendental.
Na devoção a Kṛṣṇa, não encontramos o fanatismo que se apega a uma única revelação espiritual, pois Kṛṣṇa inclui todas as formas da Divindade e, portanto, todas as variedades de amor a Deus. Tampouco encontramos o racionalismo abstrato que evapora a essência da religião numa névoa de conceitos indeterminados, fundindo todas as formas religiosas numa generalidade informe, incolor e impotente — ou num vazio.