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Sobre Fé e Razão

Artigo original 27/05/2009

Quando a razão serve à revelação, encontra seu devido lugar como um aspecto da fé. Como aspecto da fé, a razão se torna mais útil e mais bela. Ela passa a ser um instrumento da alma, em vez de traí-la.

Em que sentido a razão é um aspecto da fé? A fé não é justamente o recurso daqueles a quem falta razão? Perguntas como essas revelam uma compreensão superficial da natureza da fé. Compreendida plenamente, a fé consiste em estar em conformidade com a verdade, ao passo que o pensamento racional é apenas um meio imperfeito de apreender a verdade. Estar em conformidade com a verdade envolve apreendê-la ou compreendê-la teoricamente, mas compreender a verdade em termos teóricos não implica necessariamente estar em conformidade com ela.

Como observa Karen Armstrong, a palavra latina credo deriva de cordare: entregar o coração, comprometer-se. Esse compromisso favorece uma compreensão que não se alcança permanecendo intelectualmente em cima do muro. Com uma compreensão semelhante da fé (śraddhā), Ṭhākura Bhaktivinoda a equipara à rendição (śaraṇāgati). Śrī Kṛṣṇa faz o mesmo no Gītā: após despertar em Arjuna a fé na eficácia da bhakti, diz-lhe que a aplicação prática dessa fé é a rendição.

O mundo superior e interior, que abrange o mundo inferior e exterior, apresenta-se a nós por meio de símbolos. Seus símbolos, seus mitos, não são fatos nos quais se deva acreditar cegamente, nem histórias que precisem ser comprovadas empiricamente antes de serem aceitas. O mythos não é logos, mas não há nada de irracional em aceitar o mítico e o simbólico na busca por conhecer aquilo que o logos jamais pode revelar. Tampouco é lógico prescindir inteiramente do mythos em nome do logos.

O fato de a fé, ao aceitar o simbólico, ser transracional — isto é, envolver uma experiência que vai além do que é possível alcançar apenas pelo pensamento racional — não implica que a fé seja irracional. A fé nasce do mistério que permeia a própria estrutura e natureza da realidade — um mistério que jamais será desmistificado por completo, por mais que aqueles que colocam a razão num altar queiram nos fazer crer no contrário. O mistério da vida, que dá origem à fé como um meio suprarracional de ter acesso ao mistério da vida — um mistério cuja chave a razão não possui —, sugere que a fé é fundamentalmente racional, na medida em que constitui uma resposta lógica ao misterioso. Diante do grande desconhecido, precisamos encontrar razões para confiar.

Mas será que podemos ter certeza de que a razão não tem o potencial de desmistificar a vida, tornando-a estática, sem sentido e entediante? Se a fé exerce alguma influência em nossa vida, não deveríamos ser capazes de medi-la? Mas será que podemos sequer medir uma simples reta senão em termos práticos, com valor apenas para a realização de uma determinada tarefa? Podemos medir aquilo que uma reta é?

Timothy Scott argumenta que, se tentarmos compreender uma reta como a soma de seus pontos, teremos de escolher um deles como ponto de partida para a medição. Tomando como referência o ponto inicial da medição, consideramos um segundo ponto em relação ao primeiro. No entanto, quando quem realiza a medição passa ao segundo ponto da reta, a relação entre os dois se modifica, pois o primeiro já não faz parte de sua experiência direta. Os dois pontos podem ser compreendidos em relação um ao outro, mas a relação entre eles difere conforme seja observada a partir de um ou de outro ponto. Além disso, como observou Meister Eckhart, um ponto não possui magnitude e, portanto, não aumenta o comprimento da reta, que é feita de pontos. Assim, a medição matemática nos permite chegar apenas a uma aproximação subjetiva da natureza da reta. E, afinal, a palavra sânscrita māyā, frequentemente traduzida como “ilusão”, também significa “medir”.

Precisamos medir a fé para acreditar em seu potencial revelador? Seria melhor questionar a fé que depositamos na razão e no empirismo como meios de alcançar um conhecimento abrangente. Isso é especialmente válido porque o conhecimento que poderiam nos proporcionar, caso fosse de fato abrangente, acabaria eliminando o mistério da vida. A fé, por outro lado, afirma a natureza misteriosa da vida. Se a fé consiste em entregar o coração, ela tem muito a ver com o amor, e, na ausência deste, a razão por si só não pode servir de substituto.

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