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O Fim da Filosofia

Artigo original 13/05/2009

O perenialismo pode ser entendido de diferentes maneiras. Aqui, emprego a palavra para designar uma filosofia. Seus defensores mais enfáticos na atualidade consideram “sanātana-dharma” sinônimo de perenialismo.

O termo “sanātana” (eterno) “dharma” (natureza) transcende qualquer religião específica e se refere à natureza eterna do ser. Como todas as grandes tradições de sabedoria reconhecem, em essência, que o “ser”, de uma forma ou de outra, é em última análise eterno, todas elas estão incluídas no perenialismo. Naturalmente, a eternidade é apenas um dos aspectos da natureza do ser. Ainda assim, muitos perenialistas contemporâneos se contentam com essa conclusão.

A meu ver, é justamente aí que o Gauḍīya Vedānta leva a reflexão adiante. Quero dizer com isso que nossa tradição entende a palavra “dharma” como implicando “a natureza servidora do ser” e, assim, interpreta sanātana-dharma como “a natureza eterna e servidora do ser” — uma interpretação claramente teísta. Essa interpretação, porém, é mais fiel ao sentido de “dharma”, que remete a uma forma ativa de existência, orientada pelo dever e pela conduta apropriada — pelo serviço, pela bhakti e pelo amor — em relação ao Infinito. Nosso sanātana-dharma nos eleva até o ápice de nossa participação eterna em uma não-dualidade dinâmica, para além de uma não-diferença estática, semelhante a um estado de animação suspensa — paz/śānti —, em eterna quietude beatífica.

E há também perenialistas teístas. De fato, alguns estudiosos chegaram a considerar nosso Bhaktivinoda Ṭhākura um perenialista teísta e, além disso, a maioria das tradições de sabedoria do mundo é decididamente — e, eu acrescentaria, de forma conclusiva — teísta. Ao dizer “de forma conclusiva”, quero dizer que essas tradições encontram sua realização última em uma relação eterna com o Infinito. Em nossa tradição, isso se traduz em uma relação entre o eu finito e o eu infinito, que constitui uma concepção dinâmica, e não estática, de não-dualidade. Imersos em um ritmo eterno, experimentaremos uma completa identificação com Deus (unidade) e, simultaneamente, permaneceremos conscientes de que somos nós, almas finitas, que servimos a Deus (diversidade).

Todos os perenialistas questionaram — quando não condenaram — a noção modernista de progresso e o cientificismo de modo geral. E fizeram isso muito bem. Eles também souberam colocar a razão em seu devido lugar, com mais discernimento do que os pós-modernistas. É a esse ponto que me volto agora, citando o estudioso da religião e perenialista praticante Huston Smith, em sua resenha de The Essential Writings of Frithjof Schuon, de Seyyed Hossein Nasr:

O perenialismo me parece oferecer a melhor alternativa à premissa que por tanto tempo sustentou a filosofia, mas que hoje parece ter perdido sua validade.
Para ser mais específico: a filosofia entrou no mundo moderno como serva da teologia, mas a ciência moderna substituiu a Revelação — e, com ela, a teologia — como o oráculo da verdade. Empiristas como Bacon estavam dispostos simplesmente a desconectar a filosofia da teologia e conectá-la à ciência, mas ainda havia coisas que a ciência não conseguia explicar, e assim a filosofia seguiu seu próprio caminho. Por que pressupor que a filosofia precise de um mestre? Que a razão, seu instrumento, se sustente por si mesma. Ao lhe conceder essa autonomia, Descartes deu origem à filosofia moderna. Se a razão é a alavanca que move as ideias, a filosofia moderna apostou na possibilidade de que essa alavanca possuísse em si mesma um ponto de apoio arquimediano. Qual seria esse ponto de apoio: as ideias inatas de Descartes, as categorias de Kant ou as impressões sensoriais dos positivistas? A questão seria objeto de intenso debate, mas a ideia de que a razão possuía algum fundamento não era seriamente questionada.
O impasse em que a filosofia se encontra hoje decorre justamente do fato de que essa suposição passou a ser questionada. O nome mais comum para essa suposição é fundacionalismo, e Isaac Levi expressa a posição da maioria de seus colegas ao afirmar que “a oposição ao fundacionalismo deveria ser o equivalente filosófico da resistência ao pecado”. A rejeição da premissa sobre a qual a filosofia moderna construiu sua própria existência lhe traz sérias dificuldades para justificar sua raison d’être. Uma antologia recente, After Philosophy, apresenta filósofos renomados divididos entre buscar novas fontes ou simplesmente encerrar de vez a exploração. Eles concordam, porém, que os poços da filosofia moderna secaram.
A razão para mencionar tudo isso aqui é sugerir que o profundo questionamento pelo qual passa a filosofia contemporânea — provocado, vale repetir, pelo colapso da fé na razão autônoma — abre mais espaço para que a filosofia perene seja ouvida do que em qualquer momento desde o surgimento da filosofia moderna. Pois, como nunca aceitou que a razão fosse autônoma, ela oferece ao menos um modelo de como a filosofia pode prosseguir sem depender dessa premissa.

Aqui, o professor Smith oferece uma ilustração contemporânea do aforismo atemporal do Vedānta-sūtra: “A razão, por si só, não leva a lugar algum” (tarko ’pratiṣṭhānāt). Muitos dentro da própria tradição acadêmica da filosofia, incluindo Smith, parecem ter perdido a fé na razão autônoma (kevala-yukti). Em seu lugar, Smith sugere que a filosofia e a razão devem estar fundamentadas na revelação (śāstra-yukti). Quando a razão serve à revelação, ela encontra seu devido lugar como um aspecto da fé — uma concepção perene. Uma concepção, acrescento, que torna nossa razão mais útil e mais bela, como instrumento da alma, em vez de cúmplice da traição à própria alma.

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