Por Swāmī Śrī Bhaktivedānta Tripurāri
Baladeva porta o arado, que simboliza sua inclinação para a agricultura, proveniente do lado materno. Sua mãe, apesar de seu casamento com um membro da realeza, viveu, na prática, como uma vaiśya durante os anos de formação de Rāma. O arado também simboliza a importância de o guru cultivar o campo do coração de seu discípulo ou discípula antes de nele plantar a semente da bhakti. Essa preparação não é propriamente um puraścaraṇa, ou processo de purificação, mas sobretudo o despertar da fé. O puraścaraṇa para o mantra dīkṣā do Gopāla mantra pode se resumir à graça do guru. Nenhum puraścaraṇa é necessário para o canto do Kṛṣṇa nāma, mas śrī guru nos dará sua bênção para fazê-lo se a fé necessária tiver sido despertada. Conceder essa bênção quando a fé ainda não despertou constitui uma ofensa ao nome divino. A outra manifestação de Balarāma na Gaura līlā, Śrī Nityānanda Prabhu, concedia generosamente o santo nome àqueles que pagavam por ele apenas com sua fé. Assim, seguimos Nityānanda Rāma nesse aspecto, fazendo os ajustes necessários de acordo com o tempo e as circunstâncias. Śrī Rūpa Gosvāmī também seguiu o exemplo de Rāma ao explicar que é a fé que torna alguém apto a trilhar o caminho de bhakti. Assim, śrī guru segue Baladeva, o guru original — Kṛṣṇa na forma de seu melhor servo.
Śrī Balarāma também manifestou seu arado em Vraja durante sua yamunākarṣaṇa līlā — quando arrastou o Yamunā —, quando retornou de Dvārakā para levar uma mensagem aos Vrajavāsīs. Ele também é chamado de “aquele que porta o arado” (Haladhara) na Vraja līlā que envolve a morte de Pralambāsura. Naquela ocasião, embora se dirija a Balarāma por esse nome — que nos lembra de seu poder —, Śukadeva o retrata de maneira muito humana: Rāma fica momentaneamente assustado com a surpreendente transformação de Pralamba, de vaqueirinho em asura — tviṣadbhutam haladhara īṣad atrasat. Rāma estava completamente absorto em sua identidade como gopa, enquanto Pralamba estava disfarçado de vaqueirinho. De repente, Pralamba assumiu sua verdadeira forma, e foi Kṛṣṇa quem despertou em Rāma a consciência de sua própria divindade, dando-lhe assim o poder necessário para enfrentar o asura. Rāma então se lembrou de como Kṛṣṇa havia matado a mulher Pūtanā e o bezerro Vatsāsura e, desse modo, compreendeu quem Pralamba realmente era, apesar de ele ter aparecido como um dos amigos de Kṛṣṇa. A lembrança de Kṛṣṇa lhe deu força. Apesar de sua potência divina, Balarāma apoia-se eternamente no ombro de seu irmão mais novo, Rāmānuja, seu amigo e mestre, de quem recebe sua força para viver.Na līlā, Balarāma também desempenha o papel de guru no que diz respeito à conduta apropriada. Esse é Haladhara, o maryādā puruṣa de Gopāla Kṛṣṇa.
Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī também se refere a Rāma como aquele que porta o arado ao afirmar que Nityānanda Prabhu é o próprio Balarāma — nityānanda gosāñi sākṣāt haladhara. E, quando Mahāprabhu assumiu o êxtase de Balarāma, ele também assumiu a forma de Haladhara.
Mas, na maior parte do tempo, Baladeva não carrega seu arado em Vraja, e sim um chifre de búfalo. Todas as manhãs, ele sopra esse chifre, sinalizando que é hora de os jovens vaqueiros se reunirem e despertarem Kanāi Kṛṣṇa. Ao som do chifre de Rāma, incontáveis vaqueiros correm em disparada para o pátio de Nanda Bābā. Enquanto Kṛṣṇa leva seus devotos ao êxtase com o som de sua flauta, Rāma desperta aqueles que estão nos rasas de vātsalya, sakhya e dāsya para seu nitya sevā. Sempre à frente no sevā, ele é a raiz do ego de servo em todas as almas e do sevā que sustenta toda a līlā — bhakta-abhimāna-mūla-balarāma. Com seu chifre de búfalo, ele lidera o mundo do serviço divino e, com seu arado, prepara o campo do nosso coração, onde a semente desse sevā é inicialmente plantada.