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Cristo, Kṛṣṇa, Caitanya

Artigo original 31/05/2009

Um de meus alunos pediu que eu respondesse ao seguinte desafio proposto por um monge cristão: “Cristo representa uma vida de moralidade e sacrifício, enquanto Kṛṣṇa representa uma vida de indulgência e imoralidade. Assim, deveria ser óbvio qual dos dois representa melhor o divino.”

Uma pergunta melhor seria: como comparar o objeto perfeito do amor com o amor perfeito, a não ser pela maneira como ambos se complementam? Se existe um aspecto do Divino que se sacrifica, deve haver também um aspecto correspondente do Divino a quem esse sacrifício se destina. Por quem Cristo se sacrificou? Somente uma concepção vaga da Divindade pode dar origem à afirmação de que foi por nós que Cristo carregou sua cruz. Sim, em teoria, os pecadores do mundo são os beneficiários do sacrifício de Cristo, mas foi para a satisfação de Deus Pai que Cristo se submeteu à crucificação, ainda que, nesse caso, a alegria do Pai esteja na salvação dos pecadores. Cristo representa o intermediário entre Deus e a humanidade, e sua vida ilustra de modo apropriado que é por meio do sacrifício que encontraremos nosso Criador. Assim, em Cristo, o Divino nos ensina mais “o caminho” do que o objetivo.

Kṛṣṇa, por outro lado, está mais relacionado ao objetivo. Kṛṣṇa representa aquele que recebe nosso sacrifício, feito para sua satisfação. Não há nada de vago aqui, mas, à primeira vista, isso pode parecer problemático. A especificidade inerente à concepção de Kṛṣṇa como Divindade pode parecer uma limitação, uma expressão parcial de um Absoluto indeterminado ou, para o cristão comum, uma tentativa de dar um rosto a Deus Pai, cuja ausência de forma o torna mais fácil de aceitar. Isso, porém, não é o que os gauḍīya vaiṣṇavas têm em mente quando, em êxtase, pronunciam as duas sílabas “kṛṣ-ṇa”. A nosso ver, é a falta de determinação filosófica que limita o Absoluto ao descrevê-lo como indeterminado. Na verdade, os gauḍīyas concebem um infinito verdadeiramente católico: beleza infinita, encanto infinito e até mesmo forma infinita. Kṛṣṇa é a visão beatífica e mais do que isso.

A especificidade da concepção de Kṛṣṇa como Divindade está longe de constituir uma limitação. No que diz respeito ao caminho do sacrifício que conduz ao amor, essa especificidade amplia nossa capacidade de amar e de nos sacrificar para a satisfação da Divindade. Os detalhes acerca da Divindade encontrados na concepção de Kṛṣṇa são cativantes. Ao conhecê-los, o que não se faria para agradá-lo? Por outro lado, quanto mais vaga for nossa concepção do Absoluto — quanto menos conteúdo positivo conhecermos acerca da Divindade —, mais limitados estaremos em nosso empenho de amar a Deus ou o mundo ao nosso redor. Resta-nos apenas abandonar o falso amor, a exploração que se faz passar por amor neste mundo. Sem dúvida, há amor em deixar de tomar para si, mas essa postura deixa pouco espaço para a entrega. Podemos ajudar os necessitados, mas, por mais importantes e gloriosos que sejam esses atos nobres, eles só parecem ocupar o lugar mais elevado enquanto nossa concepção do Absoluto permanece vaga ou sem rosto. À medida que a Divindade assume forma, passamos a conhecer o mundo que existe além do âmbito moral. Ao mesmo tempo, como levar uma vida moral e compassiva favorece o cultivo do amor interior e meditativo por Deus — amor que dá acesso ao mundo além do tempo e do espaço, do bem e do mal, etc. —, quem busca esse amor não carece de motivação para viver de maneira ética e compassiva neste mundo. De fato, a devoção a Kṛṣṇa pode oferecer uma motivação ainda maior para levar uma vida correta do que aquela proporcionada por uma concepção vaga do Absoluto ou por uma Divindade sem rosto.

Como, então, a especificidade da concepção de Kṛṣṇa como Divindade poderia limitar alguém? Além disso, um exame mais atento da revelação mostra que, ao tratar da forma, dos atributos e dos passatempos de Kṛṣṇa, ela se refere a uma infinitude de formas, atributos etc. No décimo capítulo do Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa apresenta o esplendor do mundo como uma manifestação de sua própria pessoa. Ao ouvir isso, somos levados a imaginar que tipo de pessoa ele é. Como pode o mundo estar contido em sua forma? Essa é a questão sobre a qual Arjuna reflete e à qual Kṛṣṇa responde manifestando uma visão mística do universo dentro de si mesmo. A realidade é uma pessoa — Kṛṣṇa.

A concepção de Cristo representa “o caminho” no sentido de que esse caminho é o sacrifício, do qual nasce o amor. A concepção de Kṛṣṇa representa aquilo pelo qual devemos nos sacrificar, impelidos pelos irresistíveis atributos da Divindade nela descritos. Ao mesmo tempo, dentro da concepção de Kṛṣṇa encontramos Śrī Kṛṣṇa Caitanya, a metade sacrificial da equação do amor: Kṛṣṇa dotado do amor de Rādhā por ele próprio. Nessa manifestação da concepção de Kṛṣṇa, encontramos também “o caminho” personificado. Śrī Kṛṣṇa Caitanya não morreu na cruz, mas renunciou ao amor de Viṣṇupriyā — um amor ao qual, pode-se dizer, foi mais doloroso renunciar do que suportar a dor da crucificação. Carregando a cruz do prema em separação, Kṛṣṇa vem até nós como Śrī Kṛṣṇa Caitanya, um mendicante descalço, vestido apenas com uma kaupīna, sem lar e sujeito a privações. Não apenas seu sacrifício é insuportável para quem o compreende, como também a dádiva de prema que oferece ao mundo é tão grandiosa que faz a própria salvação parecer insignificante em comparação.

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