Artigo original 03/06/2009
Certa vez, eu caminhava com Śrīla Prabhupāda quando um de meus irmãos espirituais perguntou: “Prabhupāda, Ekādaśī é auspicioso ou inauspicioso?” Em outras palavras, observamos determinadas práticas em Ekādaśī porque a configuração dos astros é inauspiciosa e buscamos neutralizar essa influência, ou simplesmente porque observar Ekādaśī é auspicioso? E, se é auspicioso, por que fazemos coisas como jejuar e assim por diante? Prabhupāda respondeu: “Ekādaśī é muito auspicioso, e não se trata de jejuar, mas de fazer um banquete.”
Upavāsa (jejum) também significa “residir” (vāsa) “perto” (upa) e, portanto, o verdadeiro princípio de Ekādaśī é residir próximo de Bhagavān. Não se trata de jejuar, mas de nos aproximarmos da Divindade. Embora todos os dias sejam dias de Deus, dois deles foram especialmente designados como “dias de Hari” para enfatizar esse ponto. A esperança é que passemos esses dias nos aproximando de Bhagavān por meio de Hari-bhakti e que, ao descobrirmos quão gratificantes são essas experiências, acabemos por vivê-las todos os dias, por toda a eternidade. É essa ideia que deve orientar nossa observância de Ekādaśī. Se o jejum só está me deixando sonolento ou orgulhoso, qual é o valor disso?
Quando eu vivia no Caitanya Saraswat Math, tomávamos prasādam de Ekādaśī no dia de Ekādaśī, mas havia ali um devoto de outro maṭha que sempre observava Nirjala Ekādaśī, sem comer nem beber nada. Quando os outros devotos se sentavam para almoçar, ele passava perto deles cantando Harināma bem alto. Embora estivesse cantando Harināma, quem prestasse bastante atenção quase podia ouvi-lo dizer: “Vejam só o meu nível! Vocês estão comendo, mas eu estou observando Nirjala Ekādaśī!” Seu jejum apenas alimentava seu orgulho, que em nada nos aproxima de Hari e, portanto, não contribui para cumprir o propósito do Ekādaśī-vrata.
Em outra ocasião, nesse mesmo maṭha, um de meus irmãos espirituais, que era sannyāsī, estava de visita e, durante o ārati, conduziu o kīrtana enquanto saltava e dançava sem reservas. Após o ārati, ele foi receber o darśana de Pūjyapāda Śrīdhara Mahārāja e, ao final da conversa que se seguiu, Śrīdhara Mahārāja pediu-lhe que, por favor, honrasse o prasādam de Ekādaśī. O sannyāsī, porém, respondeu que mantinha, havia muitos anos, o voto de não comer nem beber em Ekādaśī. Surpreso, Śrīdhara Mahārāja disse: “Saltando tão alto e dançando enquanto conduz o kīrtana, e ao mesmo tempo observando nirjala?” Embora impressionado com seu voto, Pūjyapāda Śrīdhara Deva perguntou-lhe novamente: “Você não vai comer nada — nem mesmo o prasādam de Ekādaśī de nosso maṭha?” O sannyāsī respondeu que, embora mantivesse esse voto havia muitos anos, estaria disposto a quebrá-lo e a honrar o prasādam de Mahāprabhu, se isso agradasse a Śrīdhara Mahārāja. Śrīdhara Mahārāja ficou muito satisfeito com sua resposta e, sempre que contava essa história, concluía: “Este sannyāsī compreendeu o Vaiṣṇavismo.” Aproximar-se do Vaiṣṇava, aproximar-se de Bhagavān — esse é o propósito do Ekādaśī-vrata. Em certas ocasiões, é necessário transgredir a lei para preservar seu espírito. Para cada lei há uma lei superior no caminho do amor, no qual toda lei encontra sua plenitude.
Ekādaśī corresponde a uma determinada fase da lua, à qual se atribui certa influência sobre os fluidos — as marés são o principal exemplo. O corpo humano é composto principalmente de água e, durante Ekādaśī, diz-se que a água do corpo se desloca de tal maneira que exerce pressão sobre os sentidos, tornando-os mais propensos ao desfrute. Por essa razão, Ekādaśī poderia parecer inauspicioso, pois estimularia nossos sentidos a buscar prazer e, assim, dificultaria nosso upavāsa, isto é, nossaaproximação de Hari. Segundo essa concepção, jejuamos para neutralizar a influência da lua e concentrar nossa energia em Bhagavān.
Ainda assim, Prabhupāda disse que Ekādaśī é “muito auspicioso”, que “não se trata de jejuar” e, além disso, que “se trata de fazer um banquete”. Mas como assim? Para o siddha, que vive na concepção aprākṛta do Absoluto — transcendente, embora de aparência humana —, Kṛṣṇa é como nós. Yaśodā não pensa que Kṛṣṇa seja a suprema Divindade, e tampouco pensam assim os vaqueiros ou as jovens gopīs. “Meu filho”, “meu amigo”, “meu amado” — é assim que eles pensam. Pensando em Kṛṣṇa como humano, eles também imaginam que, em Ekādaśī, os sentidos de Kṛṣṇa sofrem a mesma pressão para desfrutar mais e que, por isso, nesse dia podem lhe oferecer ainda mais. “Podemos oferecer mais prasādam, podemos satisfazer ainda mais seus sentidos e, embora já estejamos oferecendo tudo, pela graça dessa fase da lua ele pode aceitar ainda mais!” Assim, eles intensificam seu serviço e, desse modo, Ekādaśī é um dia muito auspicioso. É claro que eles também observam Ekādaśī levando em conta uma perspectiva inferior, relacionada ao serviço a Nārāyaṇa, a deidade de sua casa. Eles observam vidhi (regras) no contexto de seu rāga (apego amoroso).
Devemos procurar alcançar essa concepção aprākṛta e fazer dela nosso ideal. Devemos procurar servir Kṛṣṇa tão bem em Ekādaśī que nosso jejum, em vez de ser uma austeridade, seja simplesmente o resultado de estarmos tão ocupados em servir seus sentidos que não temos tempo para comer.