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Balarāma Tattva

Por Swami Sri Bhaktivedanta Tripurari, extraído de seu próximo livro, Circle of Friends (“Círculo de amigos”, tradução livre), como parte de uma série de artigos sobre Balarāma Tattva.

No Laghu-bhāgavatāmṛta de Rūpa Goswāmī, Balarāma é classificado como uma forma vaibhava-prakāśa de Kṛṣṇa. O pastor de vacas Gopāla Kṛṣṇa, de dois braços e que carrega uma flauta, é svayaṁ-rūpa, a forma original de Deus, na qual estão contidas todas as outras manifestações de Si mesmo. Para o propósito de sua līlā, às vezes, svayaṁ-rūpa Kṛṣṇa se expande em formas que são réplicas de si mesmo, como, por exemplo, quando fez um piquenique com seus amigos ao longo das margens do Yamunā. Nesta ocasião, Kṛṣṇa se expandiu em múltiplas réplicas de Si mesmo, de modo que cada vaqueirinho pensou que Kṛṣṇa estava sentado à sua frente e colocando comida em sua boca somente. Esse tipo de expansão de svayaṁ-rūpa Kṛṣṇa, no qual cada forma manifestada é exatamente igual ao sua svayaṁ-rūpa, tanto em sua forma física quanto psicológica, é denominado prābhava-prakāśa. No entanto, quando o svayaṁ-rūpa Kṛṣṇa se expande para līlās que requerem conteúdo emocional diferente, tais expansões são denominadas vaibhava-prakāśa, mesmo que tais formas sejam fisicamente as mesmas de sua svayaṁ-rūpa. Em Vraja līlā, apenas esses dois tipos de expansão são necessários: formas de Kṛṣṇa com a mesma composição emocional e formas com composição emocional diferente. Embora as formas de prābhava-prakāśa sejam muitas – tantas quantas forem os gopas e gopīs para Kṛṣṇa acompanhar -, há apenas um vaibhava-prakāśa em Vraja – Balarāmajī.

Seguindo o exemplo de Śrī Rūpa no Laghu-bhāgavatāmṛta, Kṛṣṇadāsa Kavirāja Goswāmī explica que as formas vaibhava-prakāśa de Kṛṣṇa diferem de svayaṁ-rūpa Kṛṣṇa no conteúdo emocional.¹ Śrī Kṛṣṇadāsa continua dizendo que, apesar da diferença em suas compleições, os dois, Kṛṣṇa e Balarāma, são iguais ². No Hari-vaṁśa Purāṇa, Kṛṣṇa fala a Balarāma, enfatizando a unidade dos irmãos em tattva:

Aquilo que eu sou, você também o é. Aquilo que ele é, eternamente sou eu. Nós nos tornamos dois, mas certamente somos um em dois corpos, um par dotado de grande poder.³

A ênfase aqui é na divindade de Balarāma, bem como em Kṛṣṇa e Balarāma como o objeto de amor combinado para aqueles que idealizam sakhya-rati. Essa é uma importante perspectiva de tattva: Kṛṣṇa e Balarāma são ambos Deus. Eles aparecem no mundo juntos, não separadamente. Entretanto, apesar dessa unidade de Kṛṣṇa e Balarāma em tattva, há uma diferença entre os dois, uma diferença tanto na aparência quanto na emoção – bhāva.

Cor e emoção estão relacionados. Assim, a diferença em suas compleições também fala da diferença emocional entre eles. A de Kṛṣṇa é śyāma (índigo) e, na teoria estética indiana, essa cor corresponde ao rasa que ele preside, śṛṅgāra, ou mādhurya-rasa 4. A de Balarāma é pāṇḍura (esbranquiçada) como a da lua ou de um cristal, e essa é a cor atribuída à rasa cômica – hāsya – que Balarāma preside e que, entre as rasas, é a melhor amiga da sakhyarasa 5. De fato, no décimo canto do Śrīmad Bhāgavatam, décimo quinto capítulo – o auge da sakhya-rasa no Bhāgavatam -, vemos que o longo elogio de Kṛṣṇa a Balarāma em meio a seus amigos é falado no êxtase da hāsya-rasa.

Tanto o cristal quanto a lua são agentes de reflexão. O cristal expressa a cor do que é colocado ao seu lado, e a lua reflete a luz do sol. Esses dois objetos do mundo natural, que são identificados com a tez de Balarāma, também nos dizem algo sobre sua constituição emocional. Kṛṣṇa é sevya – servido – Bhagavān, e Balarāma é sevaka – servo – Bhagavān. Balarāma nos faz refletir sobre Kṛṣṇa, o objeto de seu sevā, de quem Rāma extrai sua luz e vida de uma forma que nenhuma outra manifestação de Deus faz.

Em tattva, Balarāma é o próprio Deus, mas, emocionalmente, ele se sente principalmente como amigo de Kṛṣṇa 6. Seu sakhya-rati é agrupado com dāsya– e vātsalya-rati 7. Ou seja, dentro do contexto de seu sakhya-rati, Balarāma às vezes se expressa em serviço a Kṛṣṇa e, em outras ocasiões, age como o cuidador de Kṛṣṇa. Em outras palavras, o sakhya-rati de Balarāma faz a mediação entre duas emoções incompatíveis, o amor servil e o amor paternal. Em Vraja, seu sakhya predomina, embora não faltem exemplos de seu dāsya e vātsalya 8. Fora de Vraja, em Mathurā e Dvārakā, seu dāsya é mais dominante 9, e, fora da própria Kṛṣṇa līlā, seu dāsya é muito mais proeminente em seu sevā prestado aos incontáveis avatāras de Deus.

Notas de rodapé:

1 Caitanya-caritāmṛta 2.20.171

2 Caitanya-caritāmṛta 2.20.174

Hari-vaṁśa Purāṇa 2.14.48

4 Kṛṣṇadāsa Kavirāja refere-se à śṛṅgāra-rasa (amor romântico) com o termo mādhurya. Ele parece seguir o exemplo dos Goswāmīs nisso, mas justificou o uso do termo afirmando que é apropriado por causa da doçura do śṛṅgāra-rasa (mādhurya significa “doçura”). No entanto, mādhurya também é empregado para se referir à intimidade do amor semelhante ao humano que encontramos em Vraja em geral, em oposição ao aiśvarya-prema, ou amor majestoso e reverencial pela forma de Nārāyaṇa de Kṛṣṇa, que se encontra em Vaikuṇṭha.

5 Embora se possa pensar que Balarāma preside a sakhya-rasa propriamente dita, essa honra pertence a Vāmana/Upendra, o avatāra de Viṣṇu e amigo de Indra. É interessante notar que, quando Indra pediu desculpas a Kṛṣṇa pela perturbação que causou na Govardhana līlā, ele ungiu Kṛṣṇa como o Deus dos deuses, dando-lhe os nomes Govinda e Upendra.

6 Em sakhya-rasa, ele também se sente como objeto do amor de seus amigos, juntamente com Kṛṣṇa. Ele também é objeto de amor para os devotos em dāsya-, vātsalya– e mādhurya-rasas. Mas ele não é objeto de amor romântico para as gopīs de Kṛṣṇa.

7 Bhakti-rasāmṛta-sindhu 3.4.81. Esse agrupamento de rasas é chamado de saṅkula-rati, a combinação permanente de rasas na qual uma rasa predomina. O saṅkula-rati de Balarāma é sakhya-rasa agrupado com influências menores de vātsalya e dāsya. Esse ensinamento de Rūpa Goswāmī será discutido em maiores detalhes nos capítulos 5 e 6 desta seção do texto.

8 Veja Caitanya-caritāmṛta 1.5.136-141.

9 No Prīti-sandarbha 82, Jīva Goswāmī explica que, em Vraja, o dāsya e o vātsalya de Rāma estão situados dentro de seu sakhya, ao passo que, em Dvārakā, seu sakhya e vātsalya estão situados dentro de seu dāsya.

(Artigo original em https://harmonist.us/2020/07/balarama-tattva/)

Traduzido por Vraja-lila dd e revisado pela equipe do site.

Posted in Balarama Tattva, Tattva

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