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Quando Deus Se Apaixona

Artigo original 24/06/2009

Aqueles que seguem o caminho espiritual sabem que Deus ama todos os seres e também sabem o que aconteceria se todos os seres amassem a Deus. Os praticantes espirituais também sabem o que acontece quando um praticante se apaixona. No entanto, talvez não saibam o que acontece quando Deus se apaixona. Na forma de Kṛṣṇa, Deus se apaixona por Rādhā, e esse conhecimento secreto e esotérico sobre a vida amorosa íntima de Deus é a essência da kṛṣṇa-bhakti — o coração do Absoluto. Quando Deus se apaixona, encontra-se em seu momento de maior vulnerabilidade e, por isso, torna-se mais acessível àqueles que atendem à sua necessidade interior. Os devotos de Kṛṣṇa cantam, dançam, celebram e vivem esse amor, e Kṛṣṇa é conquistado pela bhakti deles.

Adornado com os enfeites da floresta — suas flores, folhas e argilas multicoloridas — e coroado com uma pena de pavão, Kṛṣṇa, cuja única arma é sua flauta, é Deus quando Deus quer ser ele mesmo: descontraído na companhia de seus devotos íntimos e esquecido até mesmo de sua própria divindade para tornar possível essa intimidade. Kṛṣṇa é o conhecedor do amor, mas é subjugado por sua amada Rādhā. O amor de Rādhā representa, assim, o amor em sua forma mais completa. Esse amor constitui a essência da bhakti — essência que o próprio Deus reverencia.

A culminação da relação amorosa de Kṛṣṇa com Rādhā, na qual ele próprio se curva diante do amor dela, encontra-se em cinco capítulos do décimo canto do Bhāgavata Purāṇa (BP 29–33). Conhecido como rāsa-līlā, esse poema aparece em meio à descrição, no Purāṇa, da līlā mítica (drama divino) de Kṛṣṇa, justamente quando o vaqueiro que toca flauta e sua jovem amada, Rādhā, chegam à adolescência. Quando chega a lua cheia de outono, o amor de Kṛṣṇa por todas as jovens pastoras (gopīs) da aldeia resplandece em sua plenitude e, ao som da quinta nota de sua flauta mágica, ele chama as gopīs — e Rādhā em particular — para encontrá-lo nos recantos da floresta, onde dançam e celebram o segredo de seu amor.

A rāsa-līlā é considerada por muitos a história mais grandiosa já contada. Foi registrada na literatura sagrada da Índia, recontada por poetas, retratada por artistas, cantada e celebrada na música, além de ter sido objeto de reflexão filosófica e de meditação ao longo de milhares de anos. É uma das grandes joias culturais e espirituais do mundo civilizado. Não fosse pela rāsa-līlā de Rādhā e Kṛṣṇa, a rica tradição religiosa do hinduísmo talvez tivesse desaparecido do mundo durante o domínio muçulmano na Índia. Embora os muçulmanos pouco se interessassem pelo hinduísmo, não podiam ignorar a história de amor de Rādhā e Kṛṣṇa. Os mogóis, em particular, encarregaram seus artesãos de retratá-la em suas obras, e assim o avanço da conquista muçulmana foi detido pela força da beleza mística e do amor.1 Duradoura, encantadora e profundamente mística, a história de amor de Rādhā e Kṛṣṇa é capaz de conquistar reinos, até mesmo um tão fortificado quanto o império mítico de nossa mente. Isso ocorre porque essa história toca profundamente a alma, mas o faz em uma linguagem especialmente adequada às nossas preocupações sensoriais e mentais.

Há uma linha tênue entre mito e realidade. Um mito pode ser uma falsidade, ou pode ser a verdade expressa de forma alegórica. De fato, pelo menos desde a época de Carl Jung, tornou-se comum buscar significado nos mitos. No entanto, mesmo o melhor dos mitos não passa de uma realidade alegórica.  O próprio mito não é uma história real.

Qual é, então, a história real?  Para a maioria de nós, nossa realidade é o mundo de nossa mente, formado a partir dos dados que recolhemos por meio dos sentidos. Essa pode ser a nossa realidade, mas quão real ela é? Certamente, ela não perdura. Para começar, nossos instrumentos de percepção — os sentidos — são imperfeitos e, portanto, o mundo de nossa mente, formado a partir das informações que eles nos fornecem, talvez seja mais falso do que real. Quente, frio, feliz, triste, bom e ruim são noções mentais relativas à nossa percepção sensorial. O mesmo dia é frio para uma pessoa e quente para outra, bom para uma e ruim para outra. Vemos o mundo através das lentes de nossa experiência mental e sensorial, mas, em última análise, são justamente essas lentes que nos impedem de experimentar a realidade como ela é. O Vedānta nos diz que aquilo que atualmente percebemos como realidade se assemelha mais a um mito, a uma falsidade, enquanto nós mesmos, os experienciadores, somos unidades da realidade — almas. O mundo fenomênico pode ser real, mas nossa percepção dele é falsa — tão falsa que nos faz esquecer de nossa própria alma. A sensação de termos perdido nossa alma, tão presente em nossa cultura, evidencia, assim, o caráter mítico de nossa percepção da realidade, moldada por preocupações sensoriais e mentais equivocadas. Quanto à história real, o mito que nos conduz à nossa alma nos conduz à realidade. De fato, aquilo que chamamos de mito talvez nem seja realmente um mito, enquanto nossa percepção mental e sensorial daquilo que chamamos de realidade pode ser mítica. Ela não é inteiramente falsa, mas sim uma alegoria do Absoluto, um reflexo da realidade.

Se examinarmos atentamente esse reflexo da realidade, veremos que ele nos revela indiretamente algo sobre a realidade última. O “mito” religioso da rāsa-līlā representa a realidade última. Trata-se, porém, de uma realidade última que também confirma o valor da humanidade, especialmente de seus aspectos sensoriais e emocionais, pois nos revela tanto que nossa sensualidade tem sua origem no Absoluto quanto que a expressão das emoções amorosas do Absoluto encontra na condição humana seu meio mais propício. Na rāsa-līlā, Deus, na forma de Kṛṣṇa, assume a condição humana para celebrar sua própria sensualidade, confirmando assim a percepção que todos temos de que nosso impulso erótico não é algo que deva ser abolido. Ele deve deixar de se voltar para o mundo e dirigir-se ao Absoluto, em sua manifestação semelhante à humana como Rādhā e Kṛṣṇa. Na rāsa-līlā, descobrimos um humanismo divino, no qual a divindade confirma a essência da humanidade, e a humanidade nos revela aquilo que a divindade deve incorporar em sua expressão mais plena.

Embora a história de amor de Rādhā e Kṛṣṇa tenha sido analisada sob muitos aspectos — social, psicológico, político e assim por diante —, ela implica algo mais profundo: nossa vida mental, sensorial e intelectual, quando mal orientada, é um mito, enquanto o drama amoroso de Rādhā e Kṛṣṇa é a realidade última. Essa é a verdade que muitos consideraram sinônimo de beleza, e esse é o drama eterno no qual a alma pode realizar seu potencial mais elevado, vivendo no amor.

Toda tentativa de estabelecer uma exegese lógica e estruturada da beleza é falha. Uma exegese da bem-aventurança espiritual suprema não é exceção. Isso ocorre porque a beleza é não racional, enquanto a própria experiência espiritual é transracional. A beleza espiritual não é contrária à razão; ela começa onde a razão termina. Como neste mundo falamos a linguagem da lógica, devemos tentar falar da experiência espiritual em nossa própria linguagem. Se, porém, nos aventurarmos no âmbito espiritual, a linguagem da lógica terá pouca utilidade, pois, no plano espiritual, a linguagem é o amor. Embora certamente possamos nos beneficiar do raciocínio lógico do Vedānta, que procura apontar para o amor e a beleza personificados por Rādhā e Kṛṣṇa, as expressões da própria experiência amorosa costumam ser mais convincentes. Assim, quando a lógica se mostra insuficiente, a poesia da experiência da rāsa-līlā fala por si só. Um único poema que expresse uma experiência espiritual pode transmitir o espírito dessa experiência melhor do que volumes de argumentação rigorosamente elaborada.

Em nossos tempos, as pessoas procuram um caminho espiritual que seja pragmático. Como isso poderá me ajudar em minha vida cotidiana? Como poderá tornar o mundo um lugar melhor para eu viver e criar meus filhos? Essas são boas perguntas. De fato, o mundo está sobrecarregado de conflitos, e nossa vida individual é afetada por eles, direta ou indiretamente, pois nenhuma pessoa decente consegue viver em paz sabendo do sofrimento dos outros. Fome, doença, opressão política, exploração empresarial e desastres ambientais são apenas alguns dos sintomas que revelam o estado doentio do mundo. Mas qual é a doença em si? É o desejo egoísta, a doença do coração. No mínimo, é essa doença que a rāsa-līlā procura tratar. A rāsa-līlā é uma história de abnegação levada ao extremo, oculta sob a aparência de um amor egoísta. Esse amor egoísta, que faz parte da vida de todos nós e sobre o qual, por isso mesmo, mais desejamos ouvir falar, é o contexto em que se apresenta a forma mais elevada de abnegação. Essa é a beleza e o mistério da rāsa-līlā, na qual Rādhā arrisca tudo — família, sociedade e até mesmo religião —, movida por seu amor por Kṛṣṇa. Embora ela pareça agir em benefício próprio, sem se preocupar com os outros, em seu encontro amoroso secreto com Kṛṣṇa ela nos ensina a abandonar tudo por Deus. Se essa não fosse a verdade interior da rāsa-līlā, como poderia seu aparente egoísmo fazer Deus se apaixonar por ela?  Nenhuma história fala de maneira mais profunda sobre aquilo que todos precisamos ouvir para tornar o mundo um lugar melhor: a abnegação devidamente centrada no objeto perfeito do amor.

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