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Śrī Navadvīpāṣṭakam 3

Por Śrī Rūpa Goswāmī, com comentários de Swāmi BV Tripurāri

Texto 3

yaḥ sarva-dikṣu sphuritaiḥ su-ṣītair 
nānā-drumaiḥ sūpavanaiḥ parītaḥ
śrī-gaura-madhyāhna-vihāra-pātrais
taṁ śrī-navadvīpam ahaṁ smarāmi

Mergulhado em meditação, me lembro de Śrī Navadvīpa-dhāma, onde brisas refrescantes sopram para todos os lados em meio a uma variedade de árvores frondosas durante o madhyāhna-vihāra de Śrī Gaura-candra.

Comentário

Às margens do Ganges, ladeado por uma linda floresta cheia de aromas e tantas flores coloridas, o calor do dia é mitigado por brisas refrescantes e árvores frondosas, à medida em que Gaura se lembra da madhyāhna-līlā de Kṛṣṇa. A revelação dessas līlās é uma contribuição singular da sampradāya Gauḍīya ao mundo religioso.¹ Tratam-se de grandes tesouros que, de outra maneira, teriam permanecido ocultos. A Syāma-kuṇḍa/Rādhā-kuṇḍa Kṛṣṇa līlā é duas vezes mais longa do que todas as outras sete seções da nitya-līlā, exceto a niśa-līlā, que tem dimensão igual. Tanto em madhyāhnalīlās quanto em niśalīlās, Rādhā e Kṛṣṇa exitosamente se unem com a ajuda de suas amigas – tanto durante a noite quanto durante o dia. Afora a niśānta-līlā — anterior à aurora, durante o qual o sentimento de saudade prevalece à medida que Rādhā e Kṛṣṇa voltam, cada um para a sua casa, os outros cinco segmentos de aṣṭakāla-līlā servem amplamente da perspectiva de mādhurya que permeia o dhāma como expectativa e facilitação desses encontros do meio-dia e da noite.

Do ponto de vista de Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura, o jardim florido no qual Gaura saboreia essas līlās fica oculto do público em geral. Grupos de altas árvores kadamba o rodeiam em todas as quatro direções. E, na base dessas árvores, crescem densos arbustos com espinhos. Esses arbustos impedem que outras pessoas entrem ali. A vida amorosa de Rādhā-Kṛṣṇa é mais doce do que as rosas. Porém, precisaremos passar pelos agudos espinhos da renúncia para apreciar seus aromas.

O amor não se pratica sem que se corram riscos. O encontro entre Rādhā e Govinda ao meio-dia é arriscado, e os seus devotos passam por várias atribulações para que tenham o darsan dessa līlā. Durante esses passatempos, tanto as gopīs quanto os priya-narma-gopas sentem-se dispostos a dar suas vidas pela união de Rādhā-Mādana Gopāla. Eles não conseguem suportar a dor da saudade que Rādhā sente de Kṛṣṇa ou que Kṛṣṇa sente de Priyājī, todavia, os dois se encontrarem sob o sol do meio-dia é quase impossível sem que surja alguma espécie de intriga. Assim, oramos ao meio-dia, seguindo os passos de Ṭhākura Bhaktivinoda, yugala-milana sukhera kāraṇa jīvana chāḍite pāri: “Para viabilizar a união de Rādhā-Kṛṣṇa, estou preparado para abandonar minha vida”.²

Durante a līlā do meio-dia de Gaura, que acontece ao longo da margem do Ganges, Svarūpa Dāmodara conduz o līlā-kīrtana da madhyāhna-līlā de Kṛṣṇa, e valendo-se de semelhante līlā-kīrtana, Gaura Kṛṣṇa e seus devotos são transportados para diversas līlās de meio-dia no Rādhā-kuṇḍa. Em seu Gaura-govinda-līlāmṛta guṭikā, Siddha Kṛṣṇadāsa retrata como Gaura realiza o Holī, o “festival das cores” da primavera, em particular. Essa līlā começa com Gaurīdāsa Paṇḍita, vivenciando os humores de Subala, enchendo Gadādhara com cores à medida que transcorre uma intensa batalha. Ao final, Gaurīdāsa emerge declarando vitória para o lado de Gaura.

Em seu Śrī Śrī Gaura-tattvāmṛta, Śrī Gauralāla Goswāmī visualiza Gopāla em meio à Holī Vraja līlā do meio-dia. Cansado pela batalha e exaurido pelas intrigas das gopīs, Syāma percebe que seu orgulho corre risco. Porém, Subala-sakhā intervém e protege a dignidade de seu amigo com sua brilhante capacidade de usar as palavras. Śrī Goswāmījī, então, conclui: “Portanto, já que Subala se manifestou hoje em Śrī Gaura līlā como Śrī Gaurīdāsa Paṇḍita Ṭhākura, apenas pelo fato de se refugiar a seus pés de lótus, é possível conquistar a imensa fortuna de presenciar inclusive a līlā tão íntima de nidhū-nikuñja. Que dúvida resta quanto a isso?”

Em sua madhyāhna-līlā, às vezes, Gaura se afasta de seus companheiros em um momento de introspecção. O poeta Rādhā-mohana canta assim:

Ó, irmão, você conhece meu coração, por isso, por que demora? Por favor, traga-a! Mostre-me Rādhā, senão morrerei!” Levando o Prabhu consigo, Gaurīdāsa entra na água. Mostrando a Gaura seu reflexo na água, Gaurīdāsa diz: “Ali está sua Rādhā!”. Então, Gaura considera que o reflexo de seu próprio rosto é o rosto de Rādhā. Nesse momento, ele derrama lágrimas de amor e seu coração se alegra. Rādhā-mohana diz: “Exceto Gaurīdāsa, quem mais conhece as profundidade do coração do Prabhu?”

 

Notas:

  1. O Padma Purāṇa equipara Rādhā com o kuṇḍa dela e também demonstra a virtude de alguém se banhar no seu lago, narrando a līlā em que se manifesta o Rādhā-kuṇḍa. No entanto, os ācāryas fundadores da missão Gauḍīya camuflam a glória do Rādhā-kuṇḍa e revelam bem mais do que qualquer outra pessoa o que se dá no encontro amoroso ao meio-dia entre Rādhā e Kṛṣṇa no Rādhā-kuṇḍa, cujos versos-semente encontram-se no Sanat-kumāra Saṁhitā. O saṁhitā é atribuído a Sanat Kumāra e, parcialmente, identifica Sanātana Goswāmī com Sanat Kumāra.

  2. Gītāmālā, Siddhi-lālasā 10.

(Artigo original em https://harmonist.us/2023/04/sri-navadvipa%e1%b9%a3%e1%b9%adakam-3/ )

Traduzido por Mahakala das e Yogamaya dd, revisado pela equipe do site.

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