Por Śrī Rūpa Goswāmī, com comentários de Swāmi BV Tripurāri
Texto 6
vidyā-daya-kṣanti-makhaiḥ samastaiḥ
ṣaḍbhir guṇair yatra janaḥ prapannaḥ
saṁstūyamāna ṛṣi-deva-siddhais
taṁ śrī-navadvīpam ahaṁ smarāmi
Em meditação, recordo-me de Śrī Navadvīpa-dhāma, onde os residentes rendidos (janaḥ prapannaḥ) são dotados de conhecimento, bondade, tolerância e sacrifício, juntamente com as seis virtudes (ṣaḍ guṇaiḥ), sendo assim louvados pelos devas, sábios e siddhas.
Comentário
Os residentes de Navadvīpa são śaraṇāgatas — almas rendidas — e muito mais. Sobre a sua śaraṇāgati, está colocada a joia suprema da coroa: o prema. Assim, os devas, sábios e siddhas os glorificam por seu conhecimento, sua bondade, sua tolerância, seu sacrifício e muito mais.
Aqui a palavra makhaiḥ refere-se ao sacrifício védico e ao resultado obtido de tais rituais. Contudo, o yajña que produz o fruto do prema de Navadvīpa é o saṅkīrtana-yajña — yajñaiḥ saṅkīrtana-prāyair yajanti hi su-medhasaḥ.1
Esse yajña não faz parte do karma-kāṇḍa, no qual se sacrificam as próprias posses materiais. Nem tampouco faz parte do autossacrifício do jñāna-kāṇḍa. Nem tampouco faz parte do upāsanā-kāṇḍa — o sacrifício na forma de amor devocional motivado pelo dever a Viṣṇu. Como canta o abençoado Narottama Ṭhākura, golokera prema-dhana harināma-saṅkīrtana. É proveniente de Goloka Vṛndāvana. Lá encontramos o ānanda-kāṇḍa, acima e além ou fora do mapa das escrituras, ainda que o śāstra, corretamente compreendido, esteja apenas apontando em sua direção. E Śrī Locana dāsa Ṭhākura proclamou que, a partir de Navadvīpa, esse yajña foi concedido de forma ampla ao mundo por aqueles que são a essência de todos os avatāras, o próprio avatārī, e a joia suprema da divindade, Gaura-Nityānanda — saba avatāra sāra śiromani kevala ānanda-kāṇḍa.2 Nesse sacrifício, a distância entre o adorador e o objeto de adoração é vencida, pois ambos se tornam um no amor. No amor, não há outro. Dois são um no amor — um não-dualismo embelezado.
Devas como Brahmā louvam aqueles que possuem o prema que surge desse yajña. No Śrīmad Bhāgavatam 10.14.35, Brahmā, com a mente atordoada diante da dimensão impressionante do amor dos Vraja vāsīs por Kṛṣṇa, chega à conclusão — própria de seu intelecto de quatro cabeças — de que, em razão de sua abnegação, no qual tudo o que fazem e tudo com que se relacionam é unicamente para o prazer de Kṛṣṇa, o próprio Kṛṣṇa permanece eternamente em dívida com eles. Sim, ele deu a si mesmo — que é tudo — em retribuição, mas também deu isso a Pūtanā, que meramente se vestiu como uma Vraja vāsī . O que, então, lhe resta para dar aos seus devotos (bhaktas) da līlā de Vraja? Assim, Brahmā descreve com precisão Kṛṣṇa como um devedor eterno. Tal é a riqueza da bhakti de Vraja, que é uma com a de Navadvīpa-dhāma.
Então, como a bhakti de Vraja é difícil de compreender, Brahmā oferece a seguinte comparação e explicação: “Esses Vraja vāsīs não são como os sannyāsīs do jñāna-mārga, que renunciam a tudo e, no máximo, chegam até ti de mãos vazias, em busca de paz. Esses pastores de vacas vêm até ti com casas, famílias, amigos e assim por diante, todos os quais são extensões de sua própria identidade como teus devotos e, como tais, todos são colocados à tua disposição. O amor é um ladrão, a casa é uma prisão, e a paixão é um grilhão, se não forem extensões daqueles que se consideram teus. Mas esses pastores de vacas vão além disso. De fato, eles pensam que tu também lhes pertences, e estão corretos.”3 Mais uma vez, isso também se aplica a esses devotos que participam da līlā de Gaura Kṛṣṇa em Navadvīpa, no rāga-mārga.
Siddhas e sábios como Śukadeva também louvaram — kṛta-puṇya-puñjāḥ — e desmaiaram ao pensar em tal praṇaya.4 Pensamentos acerca dos íntimos amigos pastores de vacas de Rāma e Kṛṣṇa, que seguem Rāma na līlā de Navadvīpa, levaram Śukadeva ao estado extático de inconsciência externa, conhecido como pralaya, do qual ele foi reanimado pelo nāma-saṅkīrtana.
Aqui também são mencionadas seis virtudes/qualidades. Outros tomam isso como uma referência aos ṣaḍ-aiśvarya de Bhagavān — riqueza, força, beleza, fama, conhecimento e renúncia. Nem mesmo todos os avatāras de Bhagavān possuem todas essas seis qualidades. Assim, atribuir todas elas aos seus dhāma-vāsīs de Navadvīpa é surpreendente! Por outro lado, eles estão intimamente entrelaçados com aquele que possui plenamente as seis na máxima medida — svayaṁ Bhagavān.
Dito isso, as seis virtudes/qualidades também podem referir-se às seis qualidades da uttama-bhakti, das quais duas se manifestam na sādhana-bhakti, essas duas e mais duas na bhāva-bhakti e, dessas quatro, mais duas na prema-bhakti: A uttama-bhakti (1) elimina o sofrimento que surge do apego material (kleśa-ghnī), (2) concede auspiciosidade (śubhādā), (3) menospreza a mukti (mokṣa-laghutā-kṛt), (4) é rara (sudurlabhā), (5) confere uma bem-aventurança concentrada (sāndrānanda-viśeṣātmā) e (6) controla Kṛṣṇa (śrī-kṛṣṇākarṣiṇī).
Mas o que dizer de seis qualidades, se Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī lista vinte e seis qualidades dos bhaktas de Gaura, cuja fonte é a sua rendição — kṛṣṇa-eka-śaraṇa. Qualidades semelhantes encontradas em não devotos que carecem dessa rendição são como a honestidade entre ladrões. Tais qualidades não são transcendentais, mas resultam antes de piedade material ou de bom karma. No entanto, o bom ou mau karma são apenas exploração autorizada e roubo descarado, respectivamente, pois não reconhecem suficientemente o verdadeiro proprietário.
(Artigo original em Śrī Navadvīpāṣṭakam 6 | Harmonist)
- Śrīmad Bhāgavatam 11.5.32. ↩︎
- Locana dāsa Ṭhākura, Śrī Śrī Gaura Nityānandera Dayā ↩︎
- Śrīmad Bhāgavatam 10.14.36. Veja meu bhāvānuvāda sobre esta oração no capítulo 29 de Circle of Friends. ↩︎
- Śrīmad Bhāgavatam 10.12.11 and 10.12.43. ↩︎
Traduzido por Prema Mantra Das.