Extraído de seu novo livro, Círculo de Amigos, como parte de uma série de artigos sobre Balarāma Tattva.
Alguns Gauḍīya Vaiṣṇavas sustentam a ideia de que Balarāma de Vraja possui uma manifestação de śakti-tattva em Vraja, e o nome dela é bem conhecido: Anaṅga-mañjarī. Ela é a irmã mais nova de Rādhā. Mas, vale notar, Balarāma não tem nenhuma relação amorosa com ela. Anaṅga-mañjarī é apaixonada por Kṛṣṇa, não por Balarāma. Além disso, a ideia de que ela é a śakti de Balarāma não é sustentada por nenhum dos Seis Gosvāmīs, por Vṛndāvana dāsa Ṭhākura, Kavi-Karṇapūra ou Kṛṣṇadāsa Kavirāja. A ideia de que ela é a śakti de Rāma provém do texto do final do século XVI Anaṅga-mañjarī-sampuṭikā, que apresenta uma série de ideias teológicas que, em alguns casos, parecem se contradizer e que, além disso, não estão em consonância nem com o siddhānta dos Gosvāmīs nem com o do Śrīmad Bhāgavatam, tampouco são sustentadas por nenhuma escritura conhecida. Tais ideias teológicas incluem, por exemplo, igualar Balarāma e Nityānanda-rāma a Rādhā.1
No entanto, se, ainda assim, aceitarmos que Anaṅga-mañjarī é a śakti de Rāma, deixando de lado os outros preceitos, mais questionáveis, do Anaṅga-mañjarī-sampuṭikā, ela deve ser considerada uma com Rāma apenas do ponto de vista do tattva, pois, como śakti-tattva, ela teria sua origem em Balarāma e somente nesse sentido seria não diferente dele — assim como Rādhā é não diferente de Kṛṣṇa. Mas Rādhā, ao mesmo tempo, é diferente de Kṛṣṇa em sua experiência de bhāva e, portanto, sua experiência não é a mesma da dele. Essa diferença é central para o Gauḍīya Vaiṣṇavismo. Na verdade, é dela que surge a Gaura līlā. Da mesma forma, Anaṅga-mañjarī, concebida como a śakti de Balarāma, também seria diferente de Balarāma em bhāva, e é o bhāva, não o tattva, que move a līlā. Assim, é claro, é importante para nós enfatizar a diferença entre Rāma e Anaṅga-mañjarī, se é que, para começar, aceitamos que os dois estejam relacionados como śaktimān e śakti.
No clímax da Vraja līlā, Kṛṣṇa é levado a contemplar e buscar o êxtase estético de Rādhā. Não há nenhum paralelo disso entre Balarāma e Anaṅga-mañjarī. Balarāma tampouco sente a necessidade de experientar o amor de Rādhā por Kṛṣṇa desde a perspectiva dela, pois ele ama Kṛṣṇa desde outra perspectiva: a de sakhya-rasa. É importante notar que um dos princípios centrais do rasa-tattva de Śrī Rūpa é que cada rasa, para cada devoto individual, é espiritualmente completo. Além disso, como poderia Balarāma desejar experimentar o amor romântico de Anaṅga-mañjarī por Rādhā e Kṛṣṇa e o sambhoga de Anaṅga-mañjarī com Kṛṣṇa, sendo este último, em particular, algo impensável para qualquer um constituído de dāsya, sakhya ou vātsalya-rasa?2 Rāma tem seu próprio relacionamento com Kṛṣṇa em amor fraternal, e o aspecto paternal de seu saṅkula-sakhya-rati proporciona a emoção por meio da qual ele também se relaciona com Rādhā.3 Além disso, como veremos mais adiante neste texto, quando alguém em sakhya-rasa demonstra afinidade com o mādhurya-rasa, o rasa do amor romântico atua como uma influência subordinada que intensifica seu amor fraternal, em vez de se manifestar como uma identidade separada de gopī. Assim, à medida que se manifesta o desejo de Kṛṣṇa de experimentar o bhāva de Rādhā, Balarāma, fiel ao seu próprio relacionamento com Kṛṣṇa, está presente — se não um passo à frente—como seu melhor amigo para ajudá-lo nessa busca extraordinária que dá origem à extensão da Kṛṣṇa līlā conhecida como Gaura līlā. Ao contrário da Vraja līlā, na qual a participação de Balarāma no romantismo de Kṛṣṇa é significativa, mas limitada e indireta, na Gaura līlā, Rāma desempenha um papel muito mais direto em sua disseminação.
Nessa līlā, Kṛṣṇa aparece como Gaura, sua tez escura transformada em dourada, seu corpo envolto em tecidos cor de açafrão, como um mendigo no mercado de prema. Tendo testemunhado a medida do amor de Rādhā por ele, que ultrapassa sua capacidade de retribuí-lo na mesma medida, ele se oferece a serviço do amor de suas gopīs. Ele lhes diz que seu amor santo é sua própria recompensa, uma recompensa maior do que qualquer coisa que esteja em sua própria posse. E, para compensar sua incapacidade de retribuir esse amor, ele faz o voto de tornar-se um sādhu uma vez a cada dia de Brahmā e, ao fazê-lo, promete dedicar-se à busca e à distribuição do ideal das gopīs.4
- Ver o Apêndice 2 para um comentário sobre o Anaṅga-mañjarī-sampuṭikā e sobre como sua teologia influenciou a tradição. ↩︎
- As histórias Purāṇicas que descrevem o desejo não realizado de Śiva de entrar na rāsa-līlā, ou o desejo do Pāṇḍava Arjuna de compreender melhor as gopīs, procuram exaltar as glórias de gopī-bhāva. Elas não falam de alguém que já esteja absorto na Vraja līlā em uma identidade transpsicológica específica que, por sua própria natureza, exclui o desejo de um envolvimento romântico com Kṛṣṇa. ↩︎
- O Śrī Rādhikā Aṣṭottara-śata-nāma-stotram 9 descreve Rādhā como “aquela que recebe o afeto parental de Balarāma” — vātsalyācyuta-purvajāyai namaḥ. ↩︎
- Ver a explicação de Sanātana Goswāmī sobre o Śrīmad Bhāgavatam 10.30.37, tal como apresentada no Bṛhad-Bhāgavatāmṛta 2.7.138. Aqui, explico brevemente as implicações de longo alcance do comentário de Sanātana Prabhu. ↩︎